A Distribuição da Naloxona em Moscou Será Suficiente?

O governo russo começou a distribuir a naloxona em Moscou

O governo russo começou a distribuir a naloxona em Moscou (Fonte: Wikimedia).

Centros de tratamento de drogas em Moscou começaram a distribuir a naloxona como antídoto para reverter a overdose de heroína e outros opióides.
 
O diretor do departamento de narcologia da Rússia, Evgeny Brun, falou ao site de notícias m24.ru que os centros de tratamento da capital começaram a distribuir a naloxona em julho deste ano, após a aquisição de cerca de 30.000 doses. De acordo com Brun, o governo irá avaliar a iniciativa do tratamento com naloxona na primavera de 2017.
 
A naloxona é uma droga antagonista de opióides e encontra-se na lista de medicamentos essenciais da Organização Mundial de Saúde (OMS). Normalmente é administrada através de uma injeção no músculo em casos de overdose de opióides; invertendo imediatamente seus efeitos, reduzindo a probabilidade de uma fatalidade.
 
A naloxona é sujeita a prescrição na Rússia – uma classificação que limita quem pode fornecê-la e acaba restringindo a sua distribuição para quem mais necessita do medicamento. Além disso, ao mesmo tempo que a iniciativa de Moscou parece ser um passo na direção certa, existem algumas limitações significativas.
 
A Fundação Andrey Rylkov (ARF), uma organização voltada para a redução de danos, revelou ao TalkingDrugs que não houve nenhum interesse em providenciar a naloxona para os dependentes que estão na rua e necessitam da droga, porém não estão realizando tratamento.
 
A diretora da ARF, Anya Sarang, disse que a ONG é a única que apoia e fornece a naloxona sem um tratamento associado. "Temos o prazer de afirmar que pelo menos 417 vidas foram salvas com a nossa naloxona em 2014-15. Esta é uma das melhores intervenções de redução de danos”, acrescentou.
 
A Rússia aplica um sistema controverso de tratamento de drogas que foi severamente criticado por exigir a abstinência do paciente e por sua recusa em incorporar medicamentos baseados em evidências, incluindo os utilizados na terapia de substituição de opiáceos (OST). A metadona e a buprenorfina, ambas utilizadas na OST, são proibidas no país. Esse contexto pode acabar afetando seriamente o interesse das pessoas em acessar o tratamento. O caso da distribuição de naloxona em Moscou levanta questões sobre a quantidade de pessoas que terão acesso ao medicamento, e, portanto, o quão eficaz será a iniciativa.
 
Nos últimos anos, UNAIDS estimou que cerca de 1,8 milhões de pessoas injetam drogas na Rússia, enquanto – em 2015 – autoridades federais estimaram que 1,7 milhões de pessoas usam heroína. O número anual de mortes por overdose no país triplicou entre 2012 e 2014, atingindo cerca de 100.000, embora não esteja claro exatamente quantas eram overdoses de opióides.
 
A obstinação da Rússia em descartar abordagens baseadas em evidências ocasionou um custo enorme – juntamente com o aumento das taxas de overdose, o número de infecções por HIV do país vem crescendo a um ritmo alarmante de 10% ao ano, de acordo com o chefe do Centro Federal de Aids. Atualmente, mais de um milhão de pessoas cadastradas vivem com o HIV, sendo muito dos casos novos atribuíveis ao uso de droga injetável.
 
Apesar dos números alarmantes, a Rússia parece estar pouco disposta a remover o embargo a OST e implementar mais programas de distribuição de seringas e agulhas de injeção estéreis, ambas comprovadamente responsáveis pelo aumento da transmissão do HIV entre os usuários de drogas injetáveis.