A pele versus a agulha: uso de drogas endovenosas, cicatrizes e cura

Frequentemente vistas como um dos sinais que identificam um verdadeiro "viciado", é inegável o estigma associado às cicatrizes lineares (needle tracks, em inglês).

Já se foram três ótimos anos desde a última vez que uma agulha perfurou minha pele em uma busca desesperada por uma veia "boa". Algumas cicatrizes ainda permanecem, correndo levemente ao longo do traçado das veias, agora danificadas, da parte interna dos meus antebraços. De espessuras e comprimentos diversos, minhas cicatrizes mostram o caminho tortuoso daqueles que foram meus pontos favoritos para injetar drogas. Servem como um lembrete ostensivo e permanente do tempo perdido na escuridão e no inferno da dependência de drogas injetáveis.

As cicatrizes podem conter uma variedade de significados, dependendo da pessoa. Assim, da mesma forma que cada pessoa é única, também o são suas cicatrizes individuais e sua interpretação delas. Há aqueles que as veem como símbolos de força, outros de nossas fraquezas. Alguns enxergam nelas lembranças dolorosas de acontecimentos a elas relacionados, enquanto outros as veem como um lembrete da perseverança e da recuperação. Da mesma forma que tatuagens, as cicatrizes marcam um evento e contam uma história, preservando-a, no tempo, em nossa pele.

Este artigo foi publicado originalmente no blog Studio L. Você pode ler o original aqui.

À medida que minhas cicatrizes físicas do uso de drogas endovenosas diminuem, desaparecendo lentamente com o passar dos anos, o mesmo acontece com a culpa e a dor emocional, que andavam de mãos dadas com elas. Cheguei a um ponto em que consigo aceitá-las, mas nem sempre me senti assim.

Houve um tempo em que, ao sair de casa, me esforçava sistematicamente para que minhas cicatrizes ficassem escondidas dos olhares curiosos de amigos ou de estranhos.

Havia me resignado a mantê-las sempre cobertas, seja por meio de maquiagens caras ou de mangas compridas e capuzes, mesmo no auge do verão. E quando digo sempre é, de fato, sempre. Quase 40 graus centígrados, além da umidade? A temperatura era irrelevante. Eu precisava cobri-las. Preferia ficar suada, desconfortável, do que exibir abertamente essas cicatrizes.

Sentia-me como se, ao expô-las, eu imediatamente anunciasse a todos ao meu redor que era uma viciada em recuperação e uma pessoa totalmente sem valor. Na minha cabeça, era como se isso estivesse escrito em minha testa. Na época, revelar-me abertamente como usuária de drogas injetáveis em recuperação era uma fonte enorme de vergonha. Não eram apenas as cicatrizes que estavam expostas, mas também a dor e os danos emocionais causados por tudo o que eu tinha feito e experimentado. Eu mesma não queria ver essas marcas, muito menos permitir que estranhos as vissem.

Seja persuadindo uma colega, grávida, a me dar centenas de dólares, ou manipulando os sentimentos de amigos e familiares incrivelmente solidários para extorquir dinheiro, ou enganando aqueles que eram generosos a ponto de me darem esmola quando mendigava nas ruas, eu tinha me especializado em mentir e em manipular os sentimentos alheios. Na época, fiz o que precisava para alimentar e sustentar meu vício. Ficar sem minha dose era como ficar sem ar.

Uma vez em recuperação e não mais mentindo ou manipulando para financiar o vício, ainda levava comigo aquela culpa latente. Era como se fosse toda a culpa que eu simplesmente não me havia permitido sentir à época.

Com o passar do tempo, comecei a examinar e a trabalhar minhas experiências, e assim, a forma de eu ver minhas cicatrizes começou a mudar. Passei a vê-las não mais como uma marca sombria na pele, que expunha minhas lutas passadas, mas como algo completamente diferente.

Para mim, as cicatrizes têm um forte duplo sentido. Elas representam nossas forças e fraquezas como pessoas. Não é necessário muito para deixar o corpo marcado de forma permanente. Quer seja uma pequena imperfeição, descoloração, deformação ou defeito, uma cicatriz permanece. No entanto, essas mesmas marcas são também lembranças da nossa força.

Temos a incrível capacidade de recobrar-nos de acontecimentos que nos machucam. As cicatrizes restantes simbolizam nossa perseverança, tenacidade, cura e crescimento. O poder que o corpo tem de curar-se e de superar danos físicos verdadeiramente traumáticos é extraordinário. Temos o poder da cura.

Minhas cicatrizes são uma lembrança concreta de que posso me curar, curei-me e de que estarei sempre no processo de cura. No entanto, essa cura vai muito além do físico. Muitas vezes cuidamos da ferida física mas falhamos ao não reconhecer, e muito menos tratar adequadamente, das feridas emocionais/mentais.

As sequelas emocionais e psicológicas de anos de dependência de drogas podem ser enormes. Não é algo que simplesmente desaparece num passe de mágica depois de 90 dias de sobriedade. Muitos carregamos conosco essa dor, anos após termos escolhido a reabilitação. Passei anos ligadona, tentando anestesiar a ferida e a dor emocional de eventos anteriores, sem nunca realmente lidar com elas. Pode ser um choque enorme achar-se de repente com a mente clara e sem sua diversão favorita para distraí-la e entorpecê-la.

Por um longo tempo, o simples vislumbre de minhas cicatrizes logo me remetia às muitas escolhas infelizes, decisões nocivas e mentiras. Mas, para um estranho, esses aspectos emocionais das cicatrizes não são tão óbvios. Não importa o quão atentamente você olhar, as cicatrizes mais profundas são as que não aparecem nessas fotos. Você não verá a vergonha nem a culpa que elas carregam. Nem detectará a cura emocional e espiritual ou a evolução mental ocorrida.

Tudo o que resta para se ver a olho nu são cicatrizes levemente pigmentadas ao longo de minhas veias maltratadas. Mas estou me curando, e cheguei a um ponto em que não mais preciso esconder ou cobrir as minhas cicatrizes. Elas fazem parte de mim.

*Studio L é escritora autônoma, morando no sudoeste de Ontário. Usuária de drogas endovenosas em recuperação, paciente de metadona, e ativista de redução de danos, ela aborda essas questões em seu blog.