Conflito ucraniano dificulta acesso a metadona e tratamento para HIV

“Por favor, permitam a entrada da metadona. Pessoas estão morrendo aqui”, implora Olga, de Luhansk, em um vídeo recente produzido por Igor Kuzmenko, da Rede Eurasiática de Pessoas que Usam Drogas. Olga é uma de por volta de mil pacientes na região de Donbass, na Ucrânia oriental, que, recentemente, descobriram que o fornecimento de seu remédio diário para o tratamento de dependência química seria interrompido, ou reduzido a doses menores que a que foi prescrita, forçando-os a sofrer dolorosos efeitos de abstinência, ou recair no uso de drogas de rua.

Um ano atrás, o voo 17 da Malaysia Airlines foi derrubado enquanto sobrevoava Donbass, matando 298 pessoas. Mas, para os pacientes da região que precisam de remédios, as maquinações políticas estão se mostrando mais letais que o fogo de mísseis.

Este artigo foi publicado pela primeira vez pelas Open Society Foundations. Leia o original aqui.

O conflito entre o governo Ucraniano e os separatistas apoiados pela Rússia ameaça as vidas de pacientes civis que perderam, ou logo perderão, o acesso a remédios vitais. Além daqueles tomando metadona, 8.000 pacientes com HIV estão com seus tratamentos se esgotando, e, com eles, suas esperanças de sobrevivência. Tratamento de HIV para muitos em Donbass durará apenas mais algumas semanas, até o meio de agosto.

O governo ucraniano lavou suas mãos da responsabilidade por áreas que não mais controla, cortando fundos para hospitais e dizendo a pacientes para viajar para território do governo para obter remédios, uma sugestão imprática e cínica. Autoridades da autoproclamada República Popular de Luhansk, uma área controlada por separatistas, declararam que eles seguiriam a abordagem russa, e banir a metadona; alega-se que nove pacientes já cometeram suicídio em desespero.

Enquanto isso, desde fevereiro os ucranianos impedem a entrada de comboios humanitários em Donbass, transportando tanto remédios para HIV como para tratamento de dependência química. Os rebeldes também não fizeram face à situação, senão para lembrar a ONU que a permissão deles também é necessária antes que os remédios possam ser transportados.

Felizmente, a conscientização pública da crise está crescendo. O enviado especial da Organização das Nações Unidas sobre HIV/AIDS na Europa Oriental e Ásia Central, Michel Kazatchkine, emitiu, em 27 de julho, uma chamada forte no New York Times, exortando as autoridades dos dois lados a agir. O Fundo Global de combate à AIDS, Tuberculose e Malária declarou estar disposto a pagar pelos remédios, e seu diretor executivo, Mark Dybul, juntamente com autoridades da Organização Mundial da Saúde, provedores de saúde, e pacientes em tratamento de HIV, tuberculose e dependência química no Leste Europeu, emitiu uma declaração, pedindo ação.

Por enquanto, os pacientes em Donbass observam a contagem do relógio, e se perguntam se seus remédios chegarão a tempo. Essa é uma questão que eles nunca deveriam ter de contemplar.

Conforme observado por Kazatchkine, a Ucrânia tem sido um líder na resposta global à epidemia de HIV. Agora, o governo precisa mostrar liderança novamente, para evitar que 8.000 pessoas vulneráveis, e a decência médica básica, não sejam acrescidas à lista de perdas do conflito.

*Daniel Wolfe é o diretor do Programa Internacional de Redução de Danos das Open Society Foundations.