Drogas e a devastação ambiental

Os laboratórios de refino de cocaína na região amazônica e andina despejam dejetos químicos altamente tóxicos na terra e nos leitos dos rios. Nessa região, fumigações de venenos sobre as plantações de coca acabam por destruir outros cultivos e tornam a terra infértil. O contato com os tóxicos despejados dos aviões resulta em graves problemas de saúde para as populações locais, como comprovado em pesquisas feitas com camponeses que vivem nesses locais.
 
A produção agrícola e extrativista são as principais atividades econômicas dos países andinos, responsáveis pela absorção da mão de obra de grande parcela da população. O declínio dos lucros com a produção de culturas lícitas como o feijão, a laranja e a cana levou a um aumento significativo da produção de coca, planta arbustiva, nativa da Bolívia e do Peru, descoberta pelos Incas e considerada sagrada devido ao seu potencial nutritivo, analgésico e preventivo do mal estar proveniente das altitudes. Os indígenas e camponeses das regiões andinas mascam folhas de coca como “combustível” para o árduo trabalho agrícola.
 
Os efeitos de mascar folhas de coca podem ser comparados aos efeitos do café, estimulantes por excelência.
 
Em meados do século passado, a proibição da cocaína fez com que seu preço adquirisse valores artificialmente astronômicos. O cultivo da coca passou a ser extremamente rentável e se expandiu por toda a região andina. Aliado à falta de subsídios para as culturas lícitas, cerca de 90% do cultivo da coca são hoje direcionados ao refino de cocaína, possibilitando uma rentabilidade que supera em até sete vezes a de outras plantações, sem contar as pressões exercidas pelos cartéis do tráfico e grupos guerrilheiros para que não cesse o cultivo da matéria-prima que garante a sua produção.
 
Guerra às Drogas e Devastação Ambiental
 
A guerra às drogas que vem sendo travada há 50 anos tem trazido consequências relativamente conhecidas e entendidas pelos que lidam com o tema, mas também outras importantes que não estavam previstas e que produziram uma vítima geralmente ignorada: o meio ambiente. A proibição entrega a responsabilidade pela produção de drogas potencialmente poderosas a inescrupulosos criminosos, trazendo ameaça à saúde pública e fomentando violentos conflitos. 
 
Esse sistema de produção de drogas não regulado e clandestino obriga os produtores a jogar fora de forma escondida os agentes químicos usados para manufaturar seus produtos, o que em muitos casos significa despejar lixo tóxico em rios ou na terra, degradando o solo, destruindo a vegetação, contaminando as nascentes dos rios e causando perda de vida aquática.
 
Há alguns anos os cartéis de drogas criaram grandes ranchos de gado dentro da reserva da Biosfera Maia na Guatemala (maior área protegida da América Central, englobando quatro parques nacionais) para lavar seus lucros e esconder centros importantes de tráfico. Ao invadir essas terras, o tráfico causa danos significativos ao meio ambiente: a fumaça e as cinzas das queimadas que realizam para limpar o campo geram chuvas ácidas, desmatamento e erosão do solo, e muitas espécies raras de animais perdem seu habitat. São essas também as principais ameaças ambientais nos países produtores de folhas de coca como a Colômbia, o Peru e a Bolívia.
 
Substâncias tóxicas usadas no processamento bruto de coca e ópio são descartadas no meio ambiente e nas águas locais.
 
O programa criado pelo governo colombiano e as Nações Unidas para divulgar os danos ambientais causados pelo uso de drogas relatou que o uso de dois gramas de cocaína equivale à destruição de oito metros quadrados de floresta tropical. Para preparar o solo pobre das regiões da selva e combater as pragas que atacam as plantações, os plantadores usam até 10 vezes mais agrotóxicos que os produtores de plantas legais. Além disso, os produtos químicos usados na transformação de folhas de coca em cocaína ou do látex de ópio da papoula em heroína podem ter um impacto muito maior sobre o meio ambiente do que os agrotóxicos empregados na produção das plantas. 
 
"A guerra contra as drogas tem tentado em vão manter a cocaína longe do nariz das pessoas, mas, em vez disso, pode acabar queimando os pulmões da Terra."
– Sanho Tree, Diretor do Institute for Policy Studies, Drug Policy Project
 
No Peru, 22 milhões de litros de compostos químicos, como o querosene, ácido sulfúrico, acetona, álcool, carbonato de sódio e ácido clorídrico, todos necessários a transformação das folhas de coca em cocaína, são despejados em rios e sobre a terra todos os anos. O querosene permanece na água sem misturar-se e forma uma camada acima da massa líquida que impede sua oxigenação, matando as espécies vegetais e a fauna aquática. O carbureto e a cal envenenam a água até níveis insuportáveis para a flora e a fauna. No entanto, o impacto mais letal cabe ao ácido sulfúrico, que também não se mistura e determina o envenenamento crônico de animais e dos seres humanos que ingerem a água contaminada, destruindo sua flora intestinal. 
 
Mas não são apenas os produtores de coca que estão destruindo o biossistema andino-amazônico e ameaçando as populações indígenas e rurais da região. As medidas do governo colombiano para destruir as plantações e erradicar a cocaína são ainda mais danosas, já que uma das técnicas usadas é pulverizar de aviões, sem aviso prévio à população, o Glifosato, herbicida sistêmico não seletivo (mata qualquer tipo de planta) fabricado pela empresa multinacional americana Monsanto, intensificado com a inclusão de um surfactante que permite que o herbicida penetre mais fundo nas folhas.
 
Esse surfactante usado na Colômbia não é aprovado para uso nos EUA e seus ingredientes são considerados segredo de mercado, tornando qualquer avaliação independente de seus efeitos muito difícil de ser realizada.
 
O impacto da fumigação generalizada sobre as comunidades locais tem sido devastador. Os aviões da polícia antidrogas não alvejam somente as plantações de coca, mas toda a vegetação, incluindo os cultivos de alimentos básicos dos quais as populações locais dependem. 
 
A região colombiana do Cauca, onde se estabeleceu uma base para conduzir as operações de fumigação, é um dos vários locais do mundo identificados como espaço de diversidade biológica ecologicamente insubstituível. Com a perda da vegetação em curto prazo, as fumigações aéreas podem ter um impacto em longo prazo na flora. A Amazônia tem um ecossistema de solo frágil e fazendeiros relatam que áreas que foram repetidamente fumigadas são menos produtivas e as colheitas não amadurecem completamente. 
 
Enquanto a cegueira voluntária dos EUA nega que os agentes químicos usados na Colômbia têm efeitos severos na fauna, as evidências sugerem que a saúde animal pode ser muito afetada pelo seu uso: o gado perde pelo ao comer nos pastos fumigados, as galinhas e os peixes morrem em resultado da água contaminada com o spray fumegante. Mais significante ainda, ao erradicar grandes áreas de vegetação as fumigações aéreas destroem o habitat dos animais e ceifam várias de suas fontes alimentícias, pondo em risco de extinção muitas espécies de pássaros, animais raros e insetos únicos na Colômbia.
 
Apesar de milhões de hectares de plantações de coca terem sido erradicados desde a década de 80, a produção total tem facilmente acompanhado a crescente demanda – mesmo que tenha se movido de uma região para outra.
 
Desde os anos 2000 os Estados Unidos têm financiado o Plano Colômbia para combater a produção e o tráfico de drogas no país. A eficácia do plano tem sido fortemente contestada, pois a produção e o fornecimento de cocaína para os EUA e Europa não diminuíram e, ao contrário do que se esperava, os preços das drogas até caíram nos mercados finais. Sem um declínio prolongado e significante na demanda, a erradicação simplesmente aumenta o preço das plantações ilícitas tornando o produto mais escasso e mais procurado, o que por sua vez incentiva o aumento da produção. 
 
Sem um declínio prolongado e significante na demanda, a erradicação simplesmente aumenta o preço das plantações ilícitas tornando o produto mais escasso e mais procurado, o que por sua vez incentiva o aumento da produção. A natureza lucrativa desse ciclo significa que a produção nunca é eliminada, somente substituída. Esse é chamado o “efeito balão”: a produção em uma região ou país é espremida pelas forças repressivas causando expansão em outra região ou país. Em busca por novas áreas para plantar, os produtores se mudam para locais remotos ou isolados, muitas vezes atingindo parques nacionais, florestas tropicais ou outras áreas protegidas e ecologicamente significantes onde a fumigação está banida.
 
A cadeia montanhosa ocidental do México, Sierra Madre, por exemplo, é uma das regiões com maior diversidade ecológica na América do Norte, mas é também uma das regiões mais prolíficas na produção de ópio e cannabis do mundo. O deslocamento de produtores de drogas para esta área tem acelerado seu desmatamento, pondo em risco de extinção numerosas espécies da fauna e da flora local.
 
“Essa destruição da floresta amazônica para plantar coca e produzir cocaína tem acontecido sob o radar dos ambientalistas. Esperamos que isso seja um toque de despertar. Esperamos que a World Wildlife Fund e o Greepeace comecem a perguntar ‘o que é isso?’”
-Francisco Santos Calderón, ex-vice presidente da Colômbia
 
A insatisfação popular com os EUA tem aumentado na mesma proporção dos danos causados ao meio ambiente e as populações locais. Ao contrário das afirmações das autoridades, são as políticas de combate às drogas que estão provocando a devastação ambiental proveniente de técnicas de produção de drogas ilícitas. O meio ambiente é sempre uma vítima de guerra. Mas a guerra às drogas é uma escolha política. Há outras opções. Todos nós compartilhamos as mesmas metas - um mundo mais seguro, mais saudável e mais justo. É hora de todos os setores afetados por essa abordagem às drogas, especialmente todos os preocupados com o ambiente, convocarem os governos, as Nações Unidas, a Organização dos Estados Americanos e outros organismos multilaterais para explorar alternativas à guerra contra as drogas. 
 
 
texto originalmente publicado no Psicotropicus
 
 
BIBLIOGRAFIA
 
1- Peru Cocaine Labs Polluting Rivers, Government Says
2- Tráfico de drogas ameaça biodiversidade e populações indígenas na Colômbia
3- Combate à coca ameaça a Amazônia
4- Count the Costs – Transform Drug Policy Foundation
5- Novos estudos expõem danos do glifosato
6- Plano Colômbia 'está claramente falhando'
7- Sessenta anos de permanente "exceção" e aberta repressão na Colômbia
8- Colômbia anuncia recorde em fumigação de drogas
9- Colombianos fogem de fumigação
10- Tráfico de drogas ameaça biodiversidade e populações indígenas na Colômbia
11- Qual o impacto ambiental da produção de coca?
12- Produção de cocaína - matando as florestas tropicais da Colômbia 
13- Produção da folha de coca