Escócia pode registar a taxa de mortalidade associada a narcóticos mais alta de toda a Europa

Fonte: Wikimedia

A taxa de mortalidade associada a narcóticos na Escócia atingiu um número recorde, podendo ser considerada como a mais alta no contexto da UE. Ditas estatísticas vêm reforçar a necessidade urgente da aplicação de medidas de redução de danos, nas quais se incluem o estabelecimento de salas de injeção assistida.

Estatísticas, publicadas no passado dia quinze deste mês, pelo Arquivo Nacional da Escócia, sugerem que dentro dos países integrantes da UE, é a Escócia que detém a taxa de mortalidade mais elevada associada a narcóticos. Segundo o relatório, verificaram-se cento e sessenta mortes por um milhão de pessoas devido a drogas por toda a Escócia, no ano de 2016. Ditos números são alarmantes quando comparados com as estimadas sessenta e cinco ponto oito mortes por um milhão de pessoas, referente à realidade de Inglaterra e País de Gales e com a média europeia de vinte ponto três por milhão. De acordo com o Centro Europeu da Monitorização das Drogas e Toxicodependência, o Estado-membro cuja taxa de mortalidade associada a drogas mais se aproxima da taxa escocesa, trata-se da Estónia, com cento e duas mortes por um milhão de adultos.

Estamos a observar um aumento sem precedentes do número de mortes relacionadas a narcóticos: entre 2015 e 206 verificou-se um aumento de vinte e três porcento, atingindo oitocentos e sessenta e sete, o número mais elevado alguma vez registado. Mais de cinquena e quatro porcento das mortes supracitadas resultaram do consumo de morfina e heroína.

Ainda que o aumento do número de mortes relacionadas com narcóticos se tenha expandido à maioria das faixas etárias, estes aumentos são mais pronunciados nos grupos mais velhos. Entre 2000 e 2016, este tipo de morte, em grupos de indivíduos entre os quarenta e cinco e cinquenta e quatro anos, sofreu um aumento de dezasseis para duzentos e três, e um influxo de três para sessenta e seis mortes, na faixa etária entre os cinquenta e cinco e sessenta e quatro anos. Igualmente, a idade média de mortes ligadas a narcóticos tem vindo a experienciar um aumento constante, nos últimos vinte anos: de vinte e oito, em 1996, para trinta e quatro, em 2006, e, finalmente, para quarenta e um, em 2016.

O grupo etário mais velho, apelidado da geração Trainspotting, apresenta um maior número de mortes, mortes estas, que tanto a comunicação social como a fação politica negligenciam em publicitar. Segundo Niamh Eastwood, diretora executiva da organização Release, o centro especializado em narcóticos e leis relativas aos mesmos, do Reino Unido, “a morte de um indivíduo de quarenta anos que viva numa situação de pobreza, não é noticiada. Estamos perante um grupo altamente marginalizado, cujas mortes não aparentam gerar a mesma atenção”.

Num esforço para reduzir o crescente número de mortes entre consumidores de heroína e morfina, particularmente aqueles pertencentes a grupos marginalizados, há planos para estabelecer uma sala de injeção assistida (DCR) em Glasgow. Falamos de instalações que salvam vidas ao garantirem que consumidores de drogas o fazem debaixo da vigilância de profissionais de saúde, munidos de equipamento para injeções, conselhos sobre métodos de redução de danos, e, quando necessário, estão prontos a administrar naloxona, um antídoto para a overdose. Com efeito, não existem quaisquer mortes resultantes de overdoses, registadas em qualquer DCR, a nível mundial.

As referidas DCRs podem, do mesmo modo, ser benéficas para indivíduos que não consomem drogas, visto que reduzem lixo resultante do consumo de narcóticos nas ruas, diminuem a difusão de doenças infeciosas como o VIH, resultam num acesso mais abrangente a serviços de emergência, bem como permitem que as forças policiais centrem a sua atenção em crimes mais graves.

A escolha da localização para a primeira DCR em Glasgow não se trata de um acidente. A área metropolitana de Glasgow e Clyde possui a taxa mais elevada de mortes associadas a narcóticos de qualquer outro concelho do Serviço Nacional de Saúde na Escócia, uma estatística que tem prevalecido durante a última década. No entanto, não se pode apontar para o facto de possuir o maior número populacional do contexto escocês, como justificação, visto que também possui o maior número de mortes associadas a drogas, com cento e setenta mortes por um milhão de pessoas, entre os anos de 2012 e 2016.

A grande maioria das mortes ligadas a narcóticos, mais especificamente duzentas e vinte e cinco das duzentas e cinquenta e sete mortes totais, resultaram do consumo de opiáceos, cento e noventa e cinco das quais, envolveram heroína, metadona, morfina ou buprenorfina. Estes números apenas ilustram a necessidade urgente da iminente implementação da DCR na cidade de Glasgow, bem como de outras instalações semelhantes por todo o país.

Ainda que estejamos perante uma emergência de saúde pública provocada pelas mortes associadas a drogas, em Inglaterra e o País, a situação no contexto escocês é vincadamente mais grave. A implementação eventual da DCR de Glasgow irá combater alguns dos danos causados por narcóticos, particularmente opiáceos. No entanto, um plano mais abrangente de diminuição de danos, é necessário. Adicionalmente, esta situação é exacerbada pela contínua criminalização de toxicodependente, visto que o estigma associado, dissuade ditos indivíduos de procurarem ajuda.

Tanto as autoridades escocesas, bem como o restante Reino Unido, podiam considerar a abordagem adotada por Portugal. Dito país, que procedeu à descriminalização da posse de todos os tipos de narcóticos em 2001, regista uma taxa de mortalidade associada a drogas de cinco ponto oito, uma das taxas mais baixas a nível europeu.