Hong Kong Desprovida de Centros Laicos de Reabilitação de Toxicodependentes

12 das 15 ONGs que dirigem centros de reabilitação de toxicodependentes exigem que a prática religiosa faça parte do "tratamento"

12 das 15 ONGs que dirigem centros de reabilitação de toxicodependentes exigem que a prática religiosa faça parte do "tratamento" (Fonte:  Pixabay)

A predominância de centros cristãos de reabilitação de toxicodependentes em Hong Kong criou fortes obstáculos aos que procuram tratar-se.

Os centros públicos de reabilitação de toxicodependentes em Hong Kong estão reservados às pessoas que são obrigadas a comparecer em tribunal por terem cometidos crimes. A população em geral que procura esses centros e que não consegue pagar um tratamento privado, tem de participar em programas geridos por organizações não governamentais (ONGs).

Segundo informações do governo, existem cerca de 8.600 toxicodependentes em Hong Kong, no entanto, os técnicos que dão apoio aos toxicodependentes no terreno afirmam que, na realidade, o número é bastante mais elevado.

De entre as 15 ONGs que gerem centros de reabilitação de toxicodependentes em Hong Kong, 13 são dirigidas por organizações cristãs. Entre estas, 12 exigem que a prática religiosa faça parte do "tratamento" que elas providenciam.

Esta escassez de centros laicos de reabilitação torna-se problemática por diversos motivos.

Apenas cerca de 10% da população de Hong Kong é cristã; a maioria é laica, budista ou segue a religião popular chinesa. As pessoas que não seguem a doutrina cristã podem hesitar em submeter-se ao tratamento - principalmente os indivíduos de comunidades sul asiáticas emergentes em Hong Kong, que são maioritariamente budistas, muçulmanos ou hindus.

Para os não cristãos que decidem participar nos programas das ONGs, a eficácia do "tratamento" pode ficar comprometida quando o envolvimento com a fé cristã é indissociável do processo de reabilitação.

Por exemplo, o South China Morning Post noticiou que um jovem nepalês não cristão, de nome Thapa, procurou tratar a sua dependência em heroína após ter-se mudado para Hong Kong. O jornal declara que ele não conseguiu encontrar um tratamento que fosse eficaz apesar de ter participado em dois programas diferentes; "Para nós [minorias étnicas], é muito difícil porque a religião não é compatível", explicou.

A St. Stephen’s Society, uma ONG cristã, é um dos mais conceituados grupos a proporcionar serviços de reabilitação de toxicodependentes em Hong Kong. O seu objetivo é de ajudar as pessoas a ultrapassar os seus problemas de droga através da espiritualidade, sem recorrer á medicação para tratar os sintomas de abstinência. O coordenador, Benjamin Cheung, fornece uma visão da filosofia do grupo: "sem voltar-se para Jesus, não vejo outra maneira [para a reabilitação de toxicodependentes]”.

Da igual forma, o Ling Oi Centre, controlado pela Igreja Evangélica Luterana de Hong Kong, não providencia tratamento farmacológico no seu denominado Programa de Tratamento Evangélico, no entanto, oferece "atividades religiosas de leitura da Bíblia e do canto do hino" no momento da ingestão de medicamentos.

O tratamento da toxicodependência baseado na fé pode ser eficaz para alguns; certos indivíduos que organizam a sua vida à volta dos seus problemas de toxicodependência podem considerar o tratamento cristão eficaz por proporcionar novas rotinas, comunidades, e um sentimento de identidade.

O problema com os serviços de reabilitação de Hong Kong não reside necessariamente na existência de tratamentos baseados na fé, mas sim, no facto de que muitas pessoas continuam a lutar contra a sua toxicodependência devido ao domínio dos programas cristãos e à falta de alternativas laicas baseadas na evidência.

Para além disso, as ideologias enraizadas nas abordagens da reabilitação baseada na fé podem ter consequências devastadoras para a percepção da sociedade sobre o uso de drogas e, consequentemente, sobre as pessoas que utilizam drogas.

As narrativas religiosas levam frequentemente a perspectivas moralistas acerca do uso de drogas, o que, por sua vez, aumenta o estigma associado. Este estigma pode marginalizar ainda mais as pessoas que usam drogas e desencorajar debates objetivos sobre a utilização de substâncias; o que impede a investigação sobre drogas e política de drogas, ao mesmo tempo que reduz a probabilidade de implementação de políticas de redução de danos baseadas em evidências.

Aparentemente, não existem planos para incrementar os programas laicos de reabilitação de toxicodependentes em Hong Kong, seja por iniciativa do governo ou das ONGs. Isto coloca um entrave sem fim à vista na redução da toxicodependência, particularmente para os não-cristãos.