México: O Candidato Presidencial Favorito à Vitória Propõe a Amnistia a Traficantes de Droga não Violentos, numa Tentativa de Contrariar a Carnificina Montante

O Principal candidato presidencial, Andrés Manuel López Obrador

O Principal candidato presidencial, Andrés Manuel López Obrador (Fonte: Wikimedia/Pixabay)

O candidato presidencial, favorito à vitória nas próximas eleições a decorrer no México, acredita que uma amenização da decorrente guerra contra as drogas do país poderá reduzir a carnificina que dela resulta. Entretanto, durante esta conjetura têm-se verificado o assassinato de vários candidatos eleitorais.

O processo eleitoral mexicano teve o seu início em Setembro de 2017, estando  os candidatos e seus eleitores a preparar-se para as eleições gerais e locais, que irão decorrer no próximo dia um de Julho. Durante os nove meses subsequentes à declaração acima citada têm-se vindo a observar uma violência generalizada canalizada contra políticos, tendo, pelo menos, cento e treze legisladores e candidatos eleitorais sido brutalmente assassinados. Alguns destes tratam-se de vocais críticos da atividade de cartéis, enquanto os outros estariam alegadamente envolvidos com tráfico de drogas.

Homicídios Recentes

Rosely Danilu Magaña, uma candidata à sede de município de Isla Mujeres, é a mais recente vítima mortal, tendo sido baleada por dois homens durante uma reunião de campanha no passado dia nove de Junho, tendo acabado por falecer no hospital no dia onze de Junho. Os seus atacantes ainda não foram identificados ou capturados.

Um dia antes ao ataque a Magaña, Fernando Purón, um antigo Presidente da Câmara da cidade de Piedras Negras, terá sido assassinado após ter tomado parte num debate anterior ao processo eleitoral. Apenas alguns minutos antes da sua morte, Purón terá dito às multidões que detinha um historial forte no que diz respeito à sua oposição ao notório cartel de drogas, Los Zetas, garantindo que não iria ceder a corrupção - “Destruímos as habitações dos Zetas, casas que se tratavam de monumentos ao [tráfico ilegal de drogas], ganhámos a cidade de volta, que previamente estava nas mãos dos Los Zetas e devolvemo-la aos cidadãos. [Os cartéis de drogas] procuram negócios ilícitos, ganhar dinheiro sujo de criminosos, semear o terror e medo entre os cidadãos, bem como infiltra-se na polícia através da corrupção (…) É preciso enfrentar o crime, não ter medo dele, chamá-lo pelo aquilo que é. Infelizmente, nem todos aqueles no poder cumprem a sua função, estando alguns mesmo em conivência com os criminosos”.

Purón foi alvejado na cabeça enquanto tirava uma selfie com um apoiante, fora do local onde o debate tinha decorrido. O seu atacante ainda não foi identificado pelas autoridades.

No início do presente mês, no dia dois de Junho, três políticas ou candidatas eleitorais do sexo feminino foram encontradas mortas em dois ataques diferentes, no mesmo dia. Pamela Teran Pineda, alegadamente a filha de um líder de um cartel segundo o Daily News mexicano, foi mortalmente baleada – juntamente com o seu motorista e fotógrafo – na cidade de Juchitán, no sul do México.

Mais tarde, nessa mesma manhã, os cadáveres repletos de balas da candidata eleitoral, Juana Irais Maldonado, e uma vereadora de nome Erika Cazares, foram encontrados num carro em Jopala, uma cidade no centro do país.

Segundo Esteban Illades, editor da revista mexicana, Nexos, “[Políticos] são apenas capazes de garantir a sua própria proteção, até certo ponto (…) a violência encontra-se de tal forma difundida e é de tal forma brutal que o número de guarda-costas que alguém tem acaba por não ser importante”.

Número crescente de mortos

Estima-se que ocorreram vinte e nove mil cento e sessenta e oito homicídios no México desde 2017, tratando-se do número mais alto desde que se iniciaram os registos em 1997.  A violência tem vindo a aumentar desde que o Presidente Felipe Calderón deu início à guerra contra as drogas militarizada no país em 2006.

Desde a implementação de dita guerra contra as drogas, pelo menos cento e oito Presidentes de Câmara foram assassinados por todo o país, sendo a brutalidade atribuída largamente aos cartéis de drogas e a grupos a estes afiliados. 

Não obstante, a violência é, do mesmo modo, perpetrada pelas próprias autoridades – pelas mãos do exército, da polícia militarizada, e das autoridades corruptas. Durante um incidente particularmente notório decorrido em 2014, quarenta e três estudantes foram raptados – e presumidamente assassinados- no Estado de Guerrero. As autoridades federais mais tarde concluíram que o ataque foi encomendado pelo Presidente da Câmara corrupto, tendo o ataque, assim, uma razão política.

Uma redução da guerra contra as drogas?

O candidato que se encontra na frente da corrida da eleição geral, Andrés Manuel López Obrador, propôs uma mudança radical na abordagem do país à guerra contra as drogas.

López Obrador, que detém uma vantagem considerável de dezassete pontos sobre o seu candidato mais próximo, pretende introduzir uma política de drogas que apelidou de Abraços, não balas ( Abrazos, no balazos). O candidato presidencial acredita que deveria ser oferecida amnistia àqueles condenados por delitos associados a tráfico de drogas, com a exceção dos casos em que sejam também cometidos crimes violentos. Obrador condenou o Estado, denominando de “inumana” a forma como este “está a massacrar [jovens] quando estes escolhem o caminho errado do crime”.

Este argumenta que a violência pode ser reduzida através de um aumento do investimento estadual em infraestruturas, bem como numa melhoria no que diz respeito à criação de emprego para a população mais jovem.

Obrador afirmou que “ Vamos mudar este regime decrépito e corrupto, repleto de justiças e privilégios, e vamos promover o desenvolvimento. Posso sumariza-lo numa só frase: trabalho, bons salários, e abraços, não balas.” Referindo-se a um Estado onde impera a violência resultante da guerra contra as drogas, o candidato presidencial salientou que “A população de Sinaloa é boa por natureza (…) apenas muitos foram forçados a enveredar pelo caminho do comportamento anti-social, muitos [perderam o seu] futuro – especialmente os jovens – algo que não irá acontecer mais”.

Ainda é incerto se López Obrador será capaz de converter a vantagem que detém nas sondagens numa vitória eleitoral no próximo dia um de Julho. Durante o tempo que resta até ao processo eleitoral, espera-se uma continuação deste clima de violência.