Netflix Compra Série Sobre Guerra às Drogas nas Filipinas Feita Pelo Defensor de Duterte

A Netflix transmitirá uma série de suspense que se passa durante o abate das guerras às drogas nas Filipinas. O programa foi feito por um diretor que apoia a repressão brutal de Duterte e trabalhou para seu regime.

A Netflix adquiriu os direitos da nova série Filipina, Amo (Boss), que estará disponível para transmissão a partir de 9 de Abril. As 12 partes da série de suspense acompanham um estudante do ensino médio que se encontra, segundo um comunicado da imprensa, ‘preso em um violento e perigoso círculo de senhores da droga, policiais desonestos e funcionários corruptos do governo’ depois de vender metanfetamina. De acordo com o comunicado da imprensa, a série explora “controvérsias envolvendo a Polícia Nacional das Filipinas na campanha do governo contra as drogas, bem como seu papel em aplicá-la corretamente”.

A história acontece no contexto do massacre em andamento de pessoas que supostamente cometeram infrações relacionadas as drogas nas Filipinas, que, segundo estimativas, já matou aproximadamente 12,000 pessoas desde que o Presidente Rodrigo Duterte chegou ao poder em 2016.

O vice-presidente de aquisição de conteúdo da Netflix, Robert Roy elogiou a “ousadia e suspense do seriado” por ter “o potencial de captar audiências em busca de emoção em todo o mundo”. 

Amo foi dirigido por Brillante Mendoza, um aclamado cineasta Filipino que elogiou a abordagem de Duterte às drogas e apoiou as comunicações públicas do regime.

“Se há uma pessoa que entende a situação [com drogas em Filipinas] é o presidente” disse Mendoza. “Eu sei que há muitas pessoas que não apoiam totalmente o que ele quer  e o que ele está fazendo agora, mas se você realmente já testemunhou a situação real, essa é a conduta certa”.

Ele desafiou os críticos estrangeiros do massacre da guerra às drogas de Duterte. “Eu diria a eles que você não conhece nosso presidente. Vocé está vendo a situação apenas da sua perspectiva como alguém que mora longe das Filipinas. Porque você está vivendo em um país de primeiro mundo”.

Mendoza usou suas habilidades de gestão no regime de Duterte. Em Setembro de 2016, o Gabinete de Comunicação Presidencial lançou uma série de vídeos antidrogas dirigidos por Mendoza para o estado, retratando o uso de drogas como destruição da vida. Mendoza foi também o diretor dos dois últimos endereços do Estado da União de Duterte, em 2016 e 2017.

Como já reportado por TalkingDrugs, pessoas pobres – especialmente aqueles que vivem em favelas – têm sido atingidos desproporcionalmente durante o massacre em massa de Duterte por supostas drogas, embora números precisos não sejam claros. Uma justiça associada da Suprema Corte das Filipinas condenou a abordagem do regime por “ir atrás de pequenos vendedores [ao invés] dos grandes senhores das drogas”. Em Fevereiro de 2018, o Tribunal Penal Internacional lançou um inquérito sobre alegações de crimes contra a humanidade cometidos por Duterte e seu regime.

Mendoza afirma que não apoia a matança extrajudicial em massa de pessoas pobres, mas parece disposto a aceitá-la como parte e parcela da guerra às drogas de Duterte. “Eu não estou defendendo que as pessoas pobres devam ser condenadas à morte. Mas, no final do dia, nós não deveriamos apenas ver [a guerra às drogas] nessa perspectiva, ele disse, “há vários lados que nós temos que levar em consideração”.