O Primeiro Ensaio Clínico do Mundo para o uso de MDMA no Tratamento da Dependência de Álcool a ser Iniciado no Reino Unido

Fonte: Pixabay

Foi iniciado, no Reino Unido, um ensaio clínico inédito, cujo objetivo passa pela exploração das potencialidades do consumo assistido de MDMA  no tratamento da dependência de álcool. Por detrás do estudo estão investigadores da Imperial College London. O ensaio consiste em múltiplas sessões terapêuticas, sendo administrado MDMA em duas das sessões – na terceira e sexta semana. As primeiras sessões já terão sido iniciadas, estando a administração das primeiras doses de MDMA prevista para as semanas vindouras. O estudo em questão pode vir a fornecer percepções valiosas no que diz respeito a métodos alternativos para o tratamento de perturbações de saúde mental.

Ir além de um tratamento superficial

No âmbito deste estudo, a TalkingDrugs falou com o Dr. Ben Sessa, psiquiatra infantil, consultante e investigador sénior na Imperial College London, que se encontra envolvido no ensaio clínico supracitado. Segundo Sessa, as opções de tratamentos presentemente disponíveis revelam-se, simplesmente, ineficazes na maioria dos casos.

As estatísticas fornecidas pelo National Institute for Alcohol Abuse and Alcoholism, (Instituto Nacional de Abuso de Álcool e Alcoolismo) revelam que noventa por cento dos indivíduos afetados por dependência de álcool têm a probabilidade de experienciar, pelo menos, uma recaída durante os quatro anos posteriores ao tratamento. 

Para Sessa, “ Nenhuma outra área da medicina toleraria ditas percentagens (…) Imagine-se se essas estatísticas se verificassem na cirurgia, imunologia ou mesmo na oncologia. Não haveria um  único médico o que tolerasse. Decorridos cem anos de psiquiatria moderna, dita conjetura é um ultraje. Quando conseguirmos ir além de uma percentagem de noventa por cento de recaídas, então talvez estaremos no bom caminho”.

Estudos levados a cabo nos EUA revelaram a alta eficácia da administração assistida de MDMA no tratamento de perturbação de stresse pós-traumático (PSPT) em veteranos.  As  semelhanças observadas entre PSPT e dependência de álcool, particularmente no que diz respeito ao papel exercido pelo trauma em ambas as condições, levou a uma exploração do MDMA como um narcótico passível a ser utilizado para garantir terapias mais eficazes.

Sessa defende que “Alcoolismo trata-se de PSPT, na minha opinião (…) maioritariamente,  o alcoolismo bem como as outras dependências das quais os meus pacientes padecem, podem ser caracterizadas como PSPT associado a outras questões”.

Este explica que durante a sua carreira como psiquiatra infantil, durante quinze anos terá acompanhado crianças sujeitas a abusos - “E agora que trabalho com adultos com dependências verifico que se tratam do mesmo grupo de crianças que ao crescerem, desenvolveram estas distúrbios mentais”.

Para Sessa, “É extremamente frustrante ver a forma como lidamos com estes distúrbios, visto que na realidade, não os tratamos, limitando-nos a camuflar os problemas com tratamentos sintomáticos”.

Analisando o medo despoletado pelo trauma

A sua carreira de quase dezoito anos permitiu a Ben Sessa verificar que um alarmante número de pacientes seus são aparentemente resistentes a tratamentos.

Segundo o clínico, “Existe uma barreira no que diz respeito a trauma severo, visto que podemos falar de vários tópicos mas é-nos impossível falar sobre aquele ponto essencial. Tal pode ser explicado pelo medo de tal modo assolador que sentimos quando tentamos aceder à memória em questão, o que nos impossibilita de transpor essa porta. É esse ponto que, usualmente, bloqueia o progresso: as pessoas tornam-se demasiados assustadas para confrontar a sua dor”.

Sessa continua, afirmando que “A questão seria, no contexto das psicoterapias tradicionais, abordada pedindo ao paciente o seguinte: 'fale-me da sua violação...' . Dita pergunta levaria o paciente a fugir e a abandonar a sessão. Sob o efeito de MDMA, quando se coloca a mesma questão ao paciente, alguém que reprimiu o seu trauma durante três décadas, este responde 'sabe que mais...consigo fazê-lo' e procede a falar da sua experiência. Os pacientes são capazes de lidar com psicoterapia que explora o seu trauma, algo que até esse ponto teriam sido incapazes de confrontar com o auxílio de tratamentos tradicionais”.

O Dr. Ben Sessa dando uma TedX Talk intitulada: Is MDMA psychiatry’s antibiotic? (Será o MDMA o antibiótico da psiquiatria?) (Vídeo)

Segundo Sessa, o MDMA auxilia, essencialmente, na eliminação do medo que, por norma, acompanha o relembrar de memórias dolorosas.

Sessa defende que MDMA “se trata da única droga, com a qual me deparei em dezoito anos de psiquiatria que tem essa capacidade. Permite que o paciente aceda um estado mental em que a resposta despoletada pelo medo é seletivamente removida, deixando, por outro lado, as outras faculdade intactas. As pessoas são capazes de pensar, de sentir, de se lembrar, de falar, conseguem mexer-se e e a sua capacidade cognitiva funciona bem, mas não sentem medo. Tal trata-se de uma combinação extraordinária”.

Sessa prossegue, afirmando que “ Imaginemos ser possível aperfeiçoar essa característica farmacêutica para ser utilizada no contexto psicoterapêutico: temos como resultado a ferramenta mais incrível à nossa disposição”. 

Devido ao seu potencial para quebrar a barreira do medo, Sessa sugere que o MDMA pode ser considerado como o “antibiótico da psiquiatria” . Tal não significa que o paciente irá passar por uma experiência alegre ou de êxtase durante a sessão terapêutica.  Significa sim, que as memórias, que são, normalmente, demasiado dolorosas para permitir que se fale delas, tornar-se-ão mais fáceis de lidar após a administração do narcótico.

Segundo Sessa: “Aqui podemos observar todos fundamentos de toda a psicoterapia: baseia-se numa relação com uma pessoa que transmita confiança, com a qual seja possível falar e partilhar a própria dor, dor esta, que estranhamente deixa de ser um fardo tão difícil de suportar”.

Ultrapassar os obstáculos colocados pelos regulamentos de modo a abrir caminho para futura investigação

Avançar com este estudo não se revelou uma tarefa fácil para a equipa de investigadores. O principal obstáculo tem sido de cariz financeiro. Sessa adverte que investigação farmacológica é, na sua maioria, levada a cabo pela indústria farmacêutica,“cujo principal objetivo passa por criar produtos que sejam usados diariamente (...) por isso a ideia de tomar MDMA apenas duas vezes e não ter de tomar ISRSs (Inibidor Seletivo de Recaptação de Serotonina) para o resto da vida não é algo que seja do interesse da indústria farmacêutica. Não vão investir financeiramente numa droga como o MDMA que consegue curar o paciente e que permite eliminar todas as outras drogas da vida do mesmo, drogas estas que lhe poderiam vender.”

Igualmente, existem barreiras de relevo no que diz respeito a sanções regulamentares e pareceres éticos. As equipas de investigadores estão dezoito meses atrasados em relação ao que estava inicialmente agendado, devido às barreiras regulamentares que são obrigados a ultrapassar. O MDMA continua a ser classificado como um narcótico de Schedule one, no Reino Unido, o que significa que é obrigatório para os investigadores obter a aprovação do Ministério da Administração Interna (Home Office), bem como pagar licenças colocadas a um preço exorbitante. O custo de apenas uma grama de MDMA corresponde a dez mil libras (treze mil e novecentos e quarenta e três dólares).

Não obstante, Sessa mantém a opinião que o trabalho levado a cabo pela sua equipa irá tornar mais fácil a ocorrência de estudos semelhantes no futuro: “ está a tornar-se mais fácil, devido ao trabalho que que estamos a  produzir. Estamos, portanto, de certo modo, a abrir caminho”.