Os EUA Direcionam Ataques Aéreos Contra Laboratórios de Ópio Afegãos: Forças Armadas Utilizam Delitos Associados a Narcóticos como Justificação das Fatalidades Civis Resultantes dos Ataques

Fotografia dos mais recentes ataques aéreos norte-americanos direcionados a laboratórios de ópio afegãos, registada pela vídeo-vigilância

Fotografia dos mais recentes ataques aéreos norte-americanos direcionados a laboratórios de ópio afegãos, registada pela vídeo-vigilância (Fonte: DVIDS)

 

No sentido das suas iniciativas de contra-terrorismo no Afeganistão, os Estados Unidos estão a recorrer a ataques aéreos com o intuito de garantir a destruição de laboratórios de ópio, bem como a morte de qualquer pessoa que se encontre no interior ditas infraestruturas.

Entre os dias três e cinco de Abril, num esforço conjunto, forças afegãs e norte-americanas conduziram  onze ataques aéreos direcionadas  a laboratórios de processamento de ópio, localizados na províncias de Farah e Nimroz, no Afeganistão. Numa declaração, a Nato caracterizou os ataques como “uma campanha com o propósito de reduzir os rendimentos dos Talibã, focando-se na principal fonte de financiamento das suas operações, ou seja a produção de narcóticos”. As autoridades norte-americanas estimam que os Talibã aufiram cerca de duzentos milhões de dólares anualmente através do cultivo da papoila de ópio e o seu processamento em heroína.

Foi reportado pela Reuters, que segundo a Coronel Lisa Garcia não se verificaram quaisquer fatalidades civis, na sequência dos bombardeamentos. É de ressalvar que, no entanto, não foi negada a ocorrência de fatalidades de qualquer natureza. A ambiguidade associada ao número e natureza de fatalidades, pode ser interpretada como um resultado da mudança de políticas dos Estados Unidos da América. A administração Trump concedeu permissão às Forças Armadas para conduzir ataques aéreos contra indivíduos, que alegadamente, contribuam de forma financeira à atividade terrorista. Tal sugere uma alteração na definição de “civil” para os EUA.

De acordo com a agência governamental de notícias oficial da República Popular da China, Xinhua, um oficial afegão declarou que semelhantes ataques afegãos e norte-americanos contra laboratórios de processamento de ópio localizados na província do sul de Helmand em Novembro de 2017 resultaram na morte de quarenta e quatro “traficantes de drogas”. Perante perguntas colocadas por jornalistas sobre as circunstâncias de referidas mortes civis, o General das Forças Armadas dos Estados Unidos da América, John Nicholson afirmou que a morte de indivíduos em infraestruturas de processamento de narcóticos encontra-se dentro do espectro daquilo permitido por lei atendendo às “novas autoridades [que me permitem] atacar as fontes de rendimento do inimigo”.

A gradual normalização desta abordagem durante os últimos meses é indicativo de uma clara mudança das políticas norte-americanas. Num recente artigo publicado pela London School of Economics, David Mansfield, um perito sobre a indústria de ópio afegã, observou que segundo esta nova abordagem, “aqueles que trabalham ou residem nestes laboratórios já não são tidos [ pelos EUA] como civis envolvidos em atividades criminais mas como combatentes inimigos e por isso passíveis a ser sujeitos a força letal”.

Debruçando-se sobre o recente ataque norte-americano incidente sobre os laboratórios de ópio, Mansfield afirmou que o facto de não se terem verificado quaisquer fatalidades civis “se tratava de algo difícil de acreditar”, sublinhando que os relatórios locais de pessoas na área sugerem o contrário. Mansfield manifestou-se sobre o assunto, colocando a seguinte questão na sua conta pessoal de Twitter : “Dizem não existirem fatalidades civis somente pelo facto dos envolvidos na economia do ópio serem presentemente definidos como combatentes inimigos que financiam insurreições ou por ninguém ter sido realmente abatido?” 

É um facto, que a mera presença de um indivíduo num laboratório de ópio não pode constituir prova definitiva de que tal indivíduo se trata de um “traficante de drogas”. Ditas infraestruturas podem conter em si, a qualquer momento do dia, várias pessoas, como técnicos, pessoal administrativo, de limpeza, ou mesmo familiares de trabalhadores. Ainda que segundo os EUA, os ataques sejam direcionados contra indivíduos envolvidos no financiamento dos Talibã, na realidade, presentemente, as Forças Armadas são responsáveis pela morte de indivíduos por alegados delitos associados a drogas.

Esta abordagem é sintomática de um novo fenómeno no que diz respeito às guerras contra as drogas, bem como contra o terrorismo, travadas pelo EUA.  A administração Bush terá tentado autorizar ataques a instalações de processamento de ópio em 2008. No entanto, devido a oposição por parte dos aliados da NATO, nenhum desses ataques terá de facto ocorrido.

Dita estratégia é esperada continuar em vigência. No dia sete de Abril, o Major-general norte-americano, James Hecker, elogiou os ataques e garantiu a continuação dos mesmos: “ Os Talibã não terão quaisquer refúgio. Continuaremos a explorar as suas redes de influência, bem como a sua capacidade de desenvolver narcóticos... Ao cortar as fontes de rendimento dos Talibã, iremos garantir a redução da sua capacidade de manutenção de atividades terroristas”.

Por outro lado, Borhan Osman, um analista sénior da ONG, International Crisis Group discorda da previsão tecida pelo oficial: “Na grande maioria, os laboratórios que têm sido alvo de ataques representam a principal fonte de rendimento da população civil, estando, normalmente, localizados em áreas densamente povoadas. A sua destruição destas infraestruturas sem o desenvolvimento de formas alternativas de rendimento para os indivíduos que delas dependem, associado à provável mortes civis que dos ataques resultam, irá aumentar o apoio da população aos Talibã”.