Perfilamento racial e policiamento “brutal” na supressão de narcóticos em Hamburgo

(Source: Pixabay/Pixabay)

Ocorrências de policiamento, discriminatório e abusivo, de narcóticos está a despoletar críticas crescentes, na cidade de Hamburgo.

O tráfico de narcóticos constitui um problema que a polícia de Hamburgo tem vindo a lidar nos últimos anos. A abordagem, que se tem focado no policiamento, centra-se, principalmente, nos bairros mais desfavorecidos da cidade. A ação policial tem sido alvo de críticas por líderes da comunidade, devido ao seu cariz, altamente, discriminatório perante homens de etnia negra.

 

Força de intervenção antinarcóticos

O policiamento de delitos relacionados com abuso de drogas encontra-se sob a alçada da força de intervenção antinarcóticos, criada em Abril de 2016. O líder da divisão, Enno Treumann, terá abertamente afirmado que indivíduos de “origem africana” são um alvo para contingente.

Aquando a formação da equipa de intervenção, Treumann emitiu o aviso de que traficantes de narcóticos seriam “importunados o mais frequentemente  possível”, pelas forças policiais. No entanto, os dados indiciam que a grande maioria das pessoas sobre as quais o grupo se foca não são, de facto, processados.

Durante os primeiros seis meses de existência da divisão, 17.321 pessoas terão sido revistadas. Falamos de 100 casos por dia. Do número total de pessoas que foram interpeladas, apenas 411 foram detidas.

Christiane Schneider, membro do parlamento de Hamburgo, observou que o grupo é incapaz de identificar da natureza da ofensa dos indivíduos detidos.

Segundo Schneider, “O grupo é incapaz de identificar se de facto se deu a ocorrência de delitos relacionados com narcóticos (…) [o grupo] é completamente ineficaz e deve ser suprimido.”

A abordagem baseada em critérios étnicos, assumida pelo grupo, será revista em tribunal, no final deste ano, resultado de um processo movido por um residente negro, com base em repetidas revistas discriminatórias assim como verificações de identidades. 

 

A morte de Jaja Diabi

Em Janeiro de 2016, nove meses após o estabelecimento do grupo, terão sido encontrados 1.6 gramas de canábis na posse de Jaja Diabi - um refugiado de 21 anos, oriundo do ocidente africano.

A posse de canábis, se numa quantidade inferior a 10 gramas, é legalmente considerada, em Hamburgo, como uma “quantidade insignificante”. Consequentemente, não constitui um delito passível a sanções.

Ainda assim, Diabi foi considerado um traficante pelo juiz. O jovem africano foi, consequentemente, preso de modo a evitar uma possível fuga deste antes do julgamento.

Diabi foi encontrado morto na sua cela, dias depois da sua encarceração. A políícia alega que Diabi cometeu suicídio. A autoridade judicial, amigos e família de Diabi argumentam que o mesmo não aparentava ter quaisquer tendências suicidas anteriormente à sua detenção.

 

A resposta da comunidade

As ações das forças policiais falharam em reunir o apoio dos residentes locais, que por sua vez lançaram uma iniciativa de modo a contra-atacar as políticas repressoras, alegadamente racistas.

Líderes da iniciativa intitulada de Anwohner_innen Initiative Balduintreppe ( A iniciativa de Balduintreppe Initiative), organizam conferências abertas ao publico em geral, nas quais é discutido a situação policial bem como formas de melhorar a vida daqueles afetados pela mesma.

Phillip, cujo apelido o mesmo escolhe não divulgar, é o cofundador da Anwohner_innen Initiative Balduintreppe. O mesmo argumenta que a presença policial tem vindo a tornar-se esmagadora no seu bairro, em Hamburgo.

Em declarações prestadas ao site TalkingDrugs, Phillip defende que “É impossível viver nesta área como um indivíduo de etnia negra sem ser assediado diariamente”.

“A situação em Balduinteppe é terrível e a presença contínua das forças policiais é sufocante. Dão-se controlos e cercos diariamente, controlo de identidade, rusgas, patrulhas policiais em toda a área, tanto de dia como de noite. Falo de detenções ferozes, por vezes semelhantes a um rapto, a partir dos nossos próprios quintais”

“A situação é extremamente frustrante e não vemos qualquer esforço da parte das autoridades, no sentido de resolver a situação. Vemos pelo contrário uma intensificação das ocorrências, pelas forças policiais, algo que não estamos prontos para aceitar.”

No dia 18 de Fevereiro, um centro comunitário local - em associação com a Anwohner_innen Initiative Balduintreppe – acolheu uma conferência que se focou no fenómeno de caracterização étnica bem como no policiamento de narcóticos. O evento, que assinala, também, um ano desde a morte de Jaja Diabi, focou-se numa variedade de assuntos, nos quais se inseriram:

“Vender drogas [ilegais] na rua é um dos trabalhos mais perigosos e precários que existem em Hamburgo (…) Como é que as condições de vida e de trabalho de vendedores de drogas podem ser melhoradas?”

 

Experiências daqueles nas ruas

Segundo o Spiegel, um número elevado dos indivíduos que traficam droga nas ruas de Hamburgo são refugiados ou imigrantes oriundos de países do oeste africano. Atividades ilegais, como a venda de narcóticos, apresentam-se como uma das únicas opções disponíveis para estes migrantes, fenómeno derivado das reduzidas oportunidades à sua disposição. Isto, pois é, frequentemente, negado a estes indivíduos o direito de trabalhar na Alemanha.

Vários homens envolvidos na venda de narcóticos em Hamburgo chamaram à atenção para esta situação, argumentando que a sua incapacidade de adquirir uma permissão de trabalho leva os mesmos a envergar em atos ilícitos.

Numa entrevista com um membro da Anwohner_innen Initiative Balduintreppe , um individuo chamado Kemele afirma - “Parece-nos clars e compreensível que nenhum de nós faz o que fazemos de livre vontade. Queremos trabalhar, no entanto, tal não é uma opção ao nosso alcance.”

Gomez, também residente da área e vendedor de canábis, descreve o tratamento duro que recebeu durante uma rusga policial: “A polícia levou 34 pessoas de uma forma brutal apesar de nenhuma delas ter resistido. Todos os indivíduos negros foram presos. E a policia não encontrou nada que os pudesse incriminar em sua posse. Foram deixados,  com as mãos atadas com cabos, durante horas, de tal forma apertados que impediam a circulação de sangue. A policia trata-nos como cães. E porquê? Nós também somos seres humanos.”

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Violentas repressões racistas sobre minorias étnicas bem como refugiados parecem ter-se tornado um aspeto normalizado no que diz respeito ao policiamento de narcóticos, no contexto de Hamburgo.  Uma crescente onda de solidariedade entre os residentes locais, no entanto, pode vir a tornar-se numa forma de alcançar uma abordagem mais racional no que diz respeito ao tráfico de drogas de baixo nível, particularmente quando envolve indivíduos que se encontram numa posição vulnerável dentro da sociedade.