Poderá MDMA ser a droga perfeita para o tratamento de PSPT? O Governo americano pretende averiguar

Vários marines estadunidenses com PSPT experimentaram tratamentos com recurso a MDMA

Vários marines estadunidenses com PSPT experimentaram tratamentos com recurso a MDMA (Fonte: Wikimedia

A organização governamental do governo estadunidense de Regulação de Comida e Drogas (FDA) chegou a um acordo com a Associação Multidisciplinar para Estudos Psicadélicos (MAPS), uma organização sem fins lucrativos. O acordo centra-se em pesquisa médica que pode resultar numa regulação de MDMA de modo a que a substância possa ser utilizada como tratamento para Perturbação de stresse pós-traumático (PSPT).

No passado dia vinte e seis de Agosto, MAPS anunciou que o FDA concedeu “uma designação terapêutica inovadora” ao MDMA para ser utilizado para o tratamento de PSPT. O acordo permitirá o inicio da Fase III do ensaio clínico sobre o potencial do uso de MDMA em indivíduos que sofram de PSPT. A referida Fase III, trata-se da fase final que um potencial medicamento tem que passar de modo a receber a aprovação do FDA. O financiamento dos testes referentes à Fase III da psicoterapia com MDMA assistida para pacientes com um grau severo de PSPT - será providenciado pela MAPS. Segundo a organização, “estes testes irão determinar a eficácia e segurança do uso de MDMA em psicoterapia assistida num grupo de duzentos a trezentos pacientes, com idades iguais e superiores a dezoito anos, em locais nos EUA, Canadá e Israel.”

Caso tudo decorra como planeado, os testes irão iniciar o registo de indivíduos durante a Primavera do próximo ano.

De acordo com a MAPS, ao atribuir a designação de “terapia inovadora”, a terapia assistida com recurso a MDMA, o “FDA concorda que este tipo de tratamento possa ter vantagens relevantes o que resulta numa maior aquiescência no que diz respeito à quantidade de medicamentos para o tratamento de PSPT disponíveis”.

MDMA trata-se de uma substância ilegal no contexto dos EUA desde 1985, após a mesma ter sido classificada pela Administração de Fiscalização de Narcótico (DEA) como “um intoxicante perigoso sem qualquer potencial médico aceite”. Contrariamente ao que é sugerido por esta designação, os possíveis benefícios médicos do narcótico têm vindo a gerar um crescente entusiasmado entre académicos, podendo estar a atingir um certo nível aceitação. Pesquisa preliminar sugere um potencial significante da substância no tratamento de PSPT.

Nicholas Blackston, um antigo marine norte-americano e veterano da Guerra do Iraque, atribui a sua cura a uma combinação de terapia e MDMA. Blackston tem estado envolvido na Fase II do ensaio clínico financiado pela MAPS, realizado de modo testar a dosagem, eficácia e segurança de MDMA no tratamento da PSPT. Previamente ao tratamento, o veterano constatou que outros tratamentos de PSTD, aos quais teria sido sujeito, o fizeram sentir “como um zombie”.

Após ter completado três sessões de setenta e cinco miligramas e outras três sessões de cento e vinte e cinco miligramas em 2012, Blackston refere que “comecei a ver o meu passado de uma forma completamente diferente…já não se tratava de um tormento”. Desde que concluiu o seu tratamento, Blackston já não se encontra na escala clínica de PSPT, escala esta que é utilizada para medir a gravidade da doença.

No seguimento da Fase II do estudo da MAPS, que combina terapia com a administração de MDMA, sessenta e um porcento dos participantes já não padecia de PSPT nos dois meses após o fim do ensaio clínico. Estes números atingiram os sessenta e oito porcento na consulta de acompanhamento, doze meses depois.

Segundo Rick Doblin, o fundador e diretor executivo da MAPS, caso estes ensaios clínicos apresentem resultados semelhantes aos que os precederam, a FDA poderá aprovar o uso de MDMA no tratamento assistido para PSPT, já em 2021.

Em declarações ao Washington PostDoblin argumentou que “se fossemos criar o narcótico perfeito para tratar PSPT, MDMA preencheria os requisitos”. Adicionalmente, visto que veteranos de guerra constituem um dos grupos mais afetados pelo PSPT, Doblin afirma que a pesquisa desenvolvida pela MAPS é capaz de “captar a simpatia pública” pois “ninguém irá contrariar que é necessário ajudar estes indivíduos”.

Segundo o Professor David Nutt, um neuropsicofarmacologista na Imperial College Londonem declarações à Science magazine“não se trata de um passo científico substancial. Durante os passados quarenta anos, tem sido óbvio que ditas substâncias são medicação. No entanto, trata-se de um passo significativa no sentido da aceitação.” De facto, anteriormente à proibição de MDMA e à sua classificação como narcótico de Listagem I pelo DEA, terá sido utilizada por alguns psiquiatras como uma ferramenta psicoterapêutica, tendo sido particularmente eficaz no que diz respeito a terapia de casais.

Como foi reportado pela TalkingDrugsa investigação científica no que diz respeito ao MDMA e outros narcóticos ilegais poderá auxiliar na questão da reforma de políticas de drogas. Os ensaios clínicos recentemente realizados, relativos a MDMA e PSPT, poderão ter um impacto significante tanto na perceção pública assim como no contexto das políticas públicas.

Os resultados dos futuros ensaios clínicos relativos à PSPT e alcoolismo poderão culminar numa aceitação abrangente de MDMA, tanto pelo público assim como pela esfera médica, no contexto norte-americano. Mas trata-se apenas do início, Doblin deposita grandes plano no futuro – “agora que estabelecemos um acordo com o FDA, estamos prontos para iniciar negociações com a Agências Europeia de Medicamentos”.