Prescrição médica de heroína no Reino Unido

“Sinto que estão á espera de nós morrermos para acabarem com as prescrições médicas de heroína” eu tristemente disse, totalmente desencantado.

Gary virou-se, olhando para mim com um ar muito sério e respondeu: “Se nós não fizermos ou pelo menos tentarmos nada acabará a dimorfina no Reino Unido.”

Gary Sutton (diretor de Serviços de Drogas na Release) continuou a escrever no computador à minha frente, despachando-se para acabar uma carta para mais um centro de tratamento que estava a trocar as ampolas de dimorfina dum paciente por medicamentos de via oral. Estava a ser um processo prolongado e doloroso para o cliente, onde a vida dele estava lentamente a ser desfeita pela instabilidade do novo tratamento.

Este artigo foi publicado primeiro na Black Poppy Magazine e apareceu na Drink and Drug News Magazine. O artigo original pode ser lido aqui.

A equipa de drogas da Release e a sua linha de ajuda –amavelmente chamada “Narco”- recebe telefonemas de pessoas em reabilitação de drogas em todo o Reino Unido. Através desta rede de comunicação, a Release tem estado a acompanhar as últimas batidas cardíacas de tratamentos alternativos de drogas. As inaptidões políticas de Downing Street criaram consequências destrutivas pelo país, onde a Release tenta compreender a escala do danos feito através desta linha. Tentamos também testemunhar as decisões de centros de tratamento, dando apoio jurídico e conselhos onde possível.

Mas com o inverno a chegar e o frio a assentar em mais um ano de trabalho contra a guerra das drogas, sentimos que estamos a ver a morte duma área pequena mas que irá ter repercussões importantíssimas. Esta situação tem como heróis trágicos o sistema britânico de reabilitação de drogas  –a joia da coroa, prescrição médica de heroína; e a redução da NHS que está a ser despedaçada pelas forças do mercado privado da saúde. Será que é nesta direção que queremos mesmo andar?

Pode ser verdade que tentar definir o antigo “Sistema Britânico” é o mesmo que lhe arrancar as asas e examinar microscopicamente o seu desenvolvimento. O “Bing” Spear, o anterior Inspetor-chefe das Drogas no Reino Unido, provavelmente seria o primeiro a lembrar-nos que “‘sistema’ e ‘programa’ implica coordenação, ordem e planeamento (do Estado) com alguma direção, valores completamente divergentes do etos fundamental do sistema britânico.” O espirito do sistema britânico para ele era um que dá “total liberdade clinica ao médico individual para decidir como tratar um paciente viciado.”

John Strang e Michael Gossop (autores de “Vício de Heroína e o Sistema Britânico”) escreveram no epílogo do livro deles que “um dos benefícios (provavelmente não propositado) é a evitar a procura de soluções extremas, ou seja adquirem uma tolerância para a imperfeição, e com isto têm maior liberdade e capacidade de evolução.”

A ‘abordagem’ britânica (termo mais correto) a reabilitação antigamente tinha espaço para evolução, flexibilidade farmacêutica e novas experiências, três características que hoje em dia não se encontram em lado nenhum. Apesar de não termos espaço aqui para discutirmos orientação clínica, muitas vezes temos casos complicados aqui na Release, onde a resposta padrão acaba sempre por ser: “Isto não está nas regras” ou “isto não é a nossa política”!

Retrospetiva é essencial, e hoje em dia há muitos que pensam que percebem como e porquê que tudo começou a correr mal para aqueles “prescritores descontrolados” (como por exemplo Drs Petro, (Lady) Frankau e uns outros). Na realidade, olhando para os 100 anos da história da abordagem britânica conseguimos ver momentos de grande importância. Estes episódios salientam-se pela sua audácia e humanidade, onde o paciente (agora ‘cliente’) e o médico uniam-se para testar e descobrir a droga certa para o paciente poder restabelecer um balanço na vida.

Será que voltamos mesmo aos dias em que temos que pedir que nos tratem como indivíduos e não como números? A política do tratamento impediu a habilidade de pacientes escolherem qual é a substancia (seja comprimidos de physeptone, heroína, morfina, oxycodone, DF118, etc.) que consideram melhor para eles, tendo somente a opção fixa de metadona ou buprenorfina, uma limitação desnecessária.

Apesar dos dias de prescrições descontroladas de dimorfina já terem passado, ainda há um grupo de médicos bem informados e responsáveis ainda com licenças para prescrever este medicamento a dependentes de opióides. Infelizmente há muitos com este privilégio que escolhem não exercê-lo, muito provavelmente porque não tiveram nenhum paciente que estivesse disposto a fazer de tudo para ter a sua próxima dose. Se calhar simplesmente gostam do louvor e estatuto que a licença dá, sem ter que fazer nenhum do trabalho.

Medo e ignorância geral causaram o colapso da prescrição de dimorfina, impondo medidas de regulação e supervisão desnecessárias; ao mesmo tempo a proibição, politiquices e uma imprensa sensacionalista impedem qualquer tipo de discussão crítica sobre este assunto, limitando os temas de conversa para “como tratar dos mais danificados, as falhas do tratamento e a inutilidade de reabilitação”.

Porque é que um tratamento que já provou ter ótimos resultados é deixado ao relento, lentamente desfazendo-se e causando sofrimento pessoal através das falhas da reabilitação causadas não pelo sistema, mas sim pelas pessoas que o controlam? Outro beneficio do sistema antigo de prescrição médica era a vantagem de levar o medicamento para casa, onde pode ser tratado como insulina, dando maior autonomia e independência que é muito desejada pelos pacientes. Esta pequena mas significante liberdade pode ser incorporada como um passo de transição para as pessoas que vão dum ambiente  ultra controlado e supervisionado para um de maior independência e que teste as capacidades de reabilitação do paciente..

As últimas pessoas no Reino Unido com receitas médicas de dimorfina para consumo caseiro parecem estar estáveis e muitas vezes já a trabalhar, fazendo a transição de terem um problema de drogas para uma dependência controlável. Este último grupo de usuários caseiros são as relíquias do sistema antigo e quando morrerem, ninguém os irá substituir.  Estas são muitas das pessoas que ligam á Release para tentar  manter as prescrições delas. Têm medo, a maior parte já tem mais que 50 anos e originalmente obterem dimorfina porque mais nada funcionava. Que é que eles são supostos fazer agora?

Na Suiça, a prescrição de dimorfina teve tanto sucesso que têm esses programas de reabilitação em prisões. Clientes nos programas de  comunidades pagam 45 euros por mês para as receitas, um valor que qualquer Britânico pagaria de bom gosto para ter acesso a dimorfina.

Na Grã-Bretanha, a prescrição de dimorfina foi enterrado no debate político e clínico sobre as despesas e medos de uso errado. Mas porquê esta hipocrisia? Com tempo e dinheiro gasto em burocracia, continua a haver falta de acompanhamento médico prolongado e problemas administrativos. Os custos de concursos durante 10 anos podem chegar a custar até £300,000 (391,000€). Dinheiro que poderia ser melhor gasto.

Há umas semanas a London School of Economics fez um miniconferência sobre dimorfina com um painel de clínicos internacionais, académicos e peritos de pesquisa. Todos concordaram que prescrições de dimorfina, num ambiente altamente regulado, tem imenso mérito. Este método foi adotado e desenvolvido no resto da Europa: os Suíços, os Holandeses, os Alemães e os Dinamarqueses, entre outros, tratam milhares de pacientes com excelentes resultados. Portanto foi muito frustrante perceber que os nossos testes clínicos de dimorfina foram fechados este ano sem nenhum plano para reabrir no futuro.

Dimorfina não deveria acabar marginalizada porque um novo ‘sistema’ polémico acha que não a consegue controlar, quando isso iria beneficiar os pacientes. Não é uma escolha entre abstinência ou manutenção. O vício não é simples, e o tratamento não é nem arte nem só ciência. Os nossos clínicos não deveriam estar satisfeitos só com metadone ou Subutex, e os pacientes não deveriam ter uma escolha binária de tratamento, de pegar ou largar.