Produção de ópio na Birmânia quase triplica em 8 anos, diz ONU

Birmânia Produção de ópio

Novo relatório da ONU revela que o cultivo da papoula para ópio no chamado “Triângulo Dourado” do sudeste asiático disparou nos últimos anos, e não dá sinal de diminuir.

Levantamento de 2014 sobre o Ópio no Sudeste Asiático, do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC na sigla em inglês), divulgado no dia 8 de dezembro, revelou que o cultivo da papoula no "Triângulo Dourado" aumentou 3,4 por cento desde 2013, chegando a 63,8 mil hectares entre Mianmar e Laos (Obs. Dados de 2014 para a Tailândia, o terceiro país do "Triângulo", ainda estão pendentes, não tendo sido, portanto, incluídos na área total cultivada em 2013 utilizada nesse cálculo).

Em Mianmar, o segundo maior produtor de ópio do mundo depois do Afeganistão e responsável por 90 por cento do cultivo de papoulas para ópio no Triângulo Dourado, a produção aumentou 166 por cento nos últimos oito anos, apesar de uma ligeira queda em 2013-14 (ver gráfico abaixo). A tendência relativamente estável da área de cultivo nos últimos 12 meses, juntamente com a queda no rendimento por hectare, resultou em 23 por cento de redução na produção de ópio em 2014.

No Laos, a área total cultivada em 2014 foi calculada em 6.200 hectares, um aumento de 2.300 hectares. No entanto, dados de 2014 não são diretamente comparáveis à estimativa, muito inferior, de 2013, em parte porque a área do levantamento foi ampliada no ano passado, de acordo com o UNODC.

Em 2014, Laos e Mianmar foram responsáveis pela produção de 762 toneladas de ópio, um declínio em relação ao ano anterior, mas mais do dobro da quantidade que era produzida há uma década.

Embora a ressalva em relação aos dados estatísticos do Laos possa explicar o pequeno aumento no cultivo regional, a tendência geral observada nos últimos anos é indicativa de uma abordagem aparentemente redundante no combate ao comércio de drogas. Por exemplo, embora em 2014 tenha havido um aumento de 24 por cento de área erradicada em Mianmar, esta resultou em uma queda, no total, de apenas 0,3 por cento. Isso não é um bom sinal para as pretensões da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN na sigla em inglês), que almeja uma ASEAN Sem Drogas em 2015.

De acordo com o relatório do UNODC há, nas regiões pesquisadas, uma relação direta entre a pobreza, a carência de fontes alternativas de renda e a decisão de cultivar a papoula. Agricultores em áreas remotas dispõem de opções limitadas para ganhar o seu sustento, dadas as dificuldades apresentadas pelo cultivo de lavouras que não a de papoula para ópio. Nas áreas rurais, o ópio é usado como uma cultura comercial para os tempos de vacas magras, provendo necessidades básicas tais como alimentação, educação e habitação. Neste sentido, o relatório destacou a necessidade de se encontrar uma abordagem equilibrada para enfrentar a produção de ópio por meio da promoção de atividades alternativas de subsistência.

Além da falta de fontes de renda alternativas, que contribui para o aumento do cultivo, outro fator importante é o aumento da demanda regional. De acordo com o Relatório Anual de 2014 sobre o Controle de Drogas na China (ARDCC na sigla em inglês), o número de usuários de heroína naquele país aumentou em cerca de 500 mil, entre 2007 e 2013, chegando a um milhão e trezentos mil, enquanto o Laos, a Tailândia e Singapura também registraram aumento, aponta o UNODC. O mercado de opiáceos e de heroína no Sudeste Asiático está agora avaliado em mais de 16,3 bilhões de dólares, afirma o ARDCC-2014.

Jeremy Douglas, representante regional do UNODC, declarou à Al Jazeera ", [Mianmar e Laos] precisam se esforçar mais para conter a entrada e saída de drogas de seus países", e citou a corrupção nas fronteiras como uma grande preocupação. No entanto, dado o resultado, ao longo da história, de iniciativas de interdição e erradicação, parece que a tentativa de reforçá-las apenas levará ao deslocamento do tráfico e terá pouco impacto sobre o uso e a produção globais.

As notícias provenientes do Sudeste Asiático seguem outro relatório do UNODC do mês passado, que mostrou que, em 2013, no Afeganistão, tanto o cultivo de papoula para ópio quanto o rendimento médio por hectare aumentaram 7 e 9 por cento, respectivamente.