Qual é entregue mais rapidamente: uma piza ou uma grama de cocaína?

Fonte: Flickr (adaptado)

O exponencial desenvolvimento tecnológico traduz-se numa crescente expectativa que as encomendas feitas, quer com recurso à Internet ou feitas através do telefone, mesmo que tal implique que o consumidor pague uma taxa adicional pelo referido serviço. Terá referida expectativa permeado o tráfico de drogas ilegais? Dita questão está a ser, presentemente, investigada por um grupo de especialistas em narcóticos.

O intuito do recentemente publicado online, Global Drug Survey 2018 (Inquérito Global sobre o Consumo de Drogas de 2018) visa compreender as formas como são consumidas e pensadas as drogas pelo mundo. Desde a sua implementação em 2011, o inquérito anual contou com mais de 450.000 inquiridos, produzindo conhecimento acerca das tendências relativas ao consumo de drogas, de forma consistente. No ano passado, por exemplo, foi, descoberta uma marcada diferença na perceção internacional do que consiste um “charro” de cannabis”, tendo sido revelada uma preferência de misturar tabaco consideravelmente mais acentuada na Europa do que nas Américas.

 

Um dos temas que figura no inquérito deste ano passa pela variabilidade da eficácia e rapidez da entrega de narcóticos, de cidade pera cidade. Segundo o professor e fundador da GDS, Adam Winstock, “o apelo da conveniência e descrição torna rentável o investimento dos traficantes de droga em serviços de entrega de topo”. A entrega rápida pode ser particularmente crucial para indivíduos que pretendam adquirir cocaína, atendendo ao rápido efeito produzido pelo estupefaciente. De acordo com o professor Winstock, um especialista médico sobre dependência, “drogas cujo efeito seja mais rápido, são conhecidas por causar uma taxa mais elevada de dependência”. Tal  levou Winstock a colocar a questão “será que ter uma entrega mais rápida à sua disposição, levará um indivíduo a comprar mais narcóticos?”

Tomando a questão acima como ponto de partida, Windstock e a sua equipa optaram por utilizar “a piza como referência” para uma comparação simbólica.  Estamos perante dois produtos consumíveis que as pessoas encomendam das suas casas, pretendendo uma entrega rápida dos mesmos.

Mesmo que tenha apenas consumido drogas num reduzido número de ocasiões, o seu testemunho será valorizado pela equipa que leva a cabo o GDS. Ao partilhar a sua experiência, estará a contribuir para uma valorosa causa, pois a informação recolhida pelo inquérito poderá ser crucial para a redução de danos resultantes do consumo de drogas, para outros. De facto, a equipa está particularmente interessada em ouvir experiências relativas à primeira vez que um indivíduo consumiu drogas. Quando foi a sua primeira experiência com MDMA? Com quem estava? O quão informado é que estava? O primeiro consumo de drogas pode ser entusiasmante. No entanto, caso o individuo não se encontre devidamente informado e a experiência não tenha sido planeada, também se pode revelar particularmente arriscada. 

Existe um número de fatores que podem influenciar a primeira experiência de consumo de drogas. Atendendo a tal, Winstock adverte para que qualquer indivíduo que esteja a considerar fazê-lo a tomar certas precauções. Caso tenha decidido consumir drogas, faça uma pesquisa relativamente às sensações que pode esperar sentir, assim como a dose apropriada a consumir (remetemos, por exemplo, para o Guia para um conusmo de MDMA mais seguro, da autoria da TalkingDrugs). É igualmente importante “estar rodeado de pessoas nas quais confie, assim como planear o local onde irá consumir” de modo a que se possa sentir confortável. Do mesmo modo, deve evitar o consumo de álcool, visto que “o consumo de drogas quando inebriado pode afetar discernimento de um indivíduo assim como pode afetar a sua capacidade de dosear, bem como de detetar o que este está a sentir”. 

Aliás, o facto de o álcool constituir uma droga, em geral, culturalmente aceite num número de países do mundo pode resultar na incapacidade de discernimento do riscos a que vários indivíduos podem estar sujeitos, caso combinem o consumo de drogas ilegais com o consumo de bebidas alcoólicas, quer não. Por essa razão, o GDS 2018 procurará averiguar o conhecimento dos entrevistados acerca dos riscos que o álcool acarreta para a saúde, assim como a sua perceção relativamente à eficácia das advertências para ditos perigos.

O aumento da taxa de mortalidade resultante do consumo de bebidas alcoólicas que se verifica a nível mundial leva o professor Winstock a advertir que “que a produção de informação apropriada e suficiente sobre a influência do consumo de álcool a nível de saúde, deve ser explorada como uma estratégia barata e de fácil implementação”. Winstock  aponta igualmente para a abordagem tomada pelo Reino Unido relativamente à regulação de tabaco – com o uso de embalagens simples, com advertências de saúde - que define como uma abordagem eficaz. A avaliação da eficácia da regulação de bebidas alcoólicas poderá ser uma importante ferramenta para informar legisladores previamente à regulação legal de cannabis, que está presentemente a decorrer, ou prestes a decorrer, no Uruguai, Canada e em vários estados dos EUA.

O Global Drug Survey 2018 prediz-se ser o maior inquérito sobre consumo de droga a nível internacional, de sempre! O inquérito encontra-se disponível online em vinte línguas e não requer que seja providenciada qualquer tipo de informação pessoal por aqueles que escolherem participar. Não perca a oportunidade de contribuir para esta fascinante e crucial investigação.

 

Aceda ao inquérito, aqui : https://www.globaldrugsurvey.com/