Tenha em conta o traficante: o fornecimento de drogas e a redução de danos no Reino Unido

Se pedir à maioria das pessoas para descrever um fornecedor de drogas online, as palavras “egoísta”, “violento” e “mau”, não estarão, provavelmente, longe dos seus lábios. Os estereótipos são poderosos e difíceis de contrariar. 

Como um “veterano” neste campo, recordo-me nas mudanças tremendas que seguiram a emergência de “mocas legais” que se focavam na química e na tecnologia. O início dos anos 2000 trouxe uma nova onda de consumo de drogas que tem vindo a influenciar, a meu ver, a escolha de químicos disponíveis, bem como o enquadramento legal ineficaz e que consistentemente revela falta de imaginação com o qual somos oprimidos, no Reino Unido. As políticas mantiveram-se congeladas, enquanto a vida se alterava, as drogas mudavam e mais importantemente, enquanto a venda de drogas começava a sua migração para o universo online.

E no que toca aos fornecedores? Se está a tentar entender o mercado, certamente é de extrema importância entender não só o consumidor e o regulador, mas também o fornecedor, certo? Na verdade, sabe-se muito pouco sobre estas criaturas tímidas que permanecem nas sombras, mas por alguma razão constituem os supermercados de um mercado de trinta e seis triliões de dólares.

Apenas alguns artigos científicos tentaram entender as motivações e práticas dos mesmos. Por exemplo, o último artigo da autoria da Universidade da Austrália, conseguiu apenas recrutar treze participantes…mesmo com a oferta de criptomoedas em troca do seu envolvimento! Por isso… Pensei que seria interessante contactar alguns dos fornecedores, de modo a ter a perceção do seu lado (trabalho semelhante está a ser desenvolvido, de forma muito mais compreensiva, nos EUA, pela Drug Policy Alliance).

Tal resultou em conversas fascinantes e num artigo de discussão com base em duas grandes questões:  Como é que o COVID-19 afetou o seu negócio e se estariam dispostos a ajudar-me a reduzir os danos sentidos pelos seus consumidores.

 

Aqueles que vendem drogas também praticam redução de danos

 

As suas respostas à primeira questão refletem o que sondagens de larga escala e relatórios (tais como o The Global Drug Survey) já nos disseram. Essencialmente, responderam-me que o consumo de drogas se tinha tornado numa espécie de dieta 5:2: a escassez de drogas a ser seguida por compras em grandes quantidades, encorajadas, por sua vez, por ofertas e promoções especiais. Como artigos prévios constataram, os cripto-mercados estão a aguentar-se perante a crise

É interessante notar, que uma gama de substâncias novas e desconhecidas estariam disponíveis, caso o seu químico de eleição não o estivesse (alguém quer Alpha-PHP?!).

A respostas à segunda questão podem ser surpreendentes. Os fornecedores mostraram-se dispostos a abordar a possibilidade de anexar uma mensagem de segurança nas suas páginas e nas suas embalagens, incluindo informação sobre as interações perigosas com outras drogas. Com foi recentemente reportado pela FilterMag.org, aqueles que vendem drogas também praticam redução de danos

Tornou-se evidente que os fornecedores com os quais falei viam-se como empresários, com uma paixão genuínas pelo que vendiam. Muitos consumem e apreciam a gama de substâncias que vendem. Ainda que a aquisição de riqueza seja um objetivo, as experiências positivas resultantes do consumo dos químicos que vendem também o são. Tal constitui uma reviravolta interessante no que diz respeito à narrativa popular que nos diz que as motivações dos dealers são puramente monetárias, bem como nos demonstra que a distinção entre consumidor e traficante é, muitas vezes, ténue.

Claramente, os “meus” fornecedores podem são ser representativos de todo o sector, e como pesquisa recente apontou (2), os fornecedores dos cripto-mercados podem ser vistos como estando na vanguarda do processo de “gentrificação” do negócio da venda de drogas.

No entanto, estas conversas demonstram que alguns dos fornecedores reconhecem a importância de uma base clientelar feliz e saudável, não sendo motivados, em primeiro lugar, pelo desejo de infligir danos aos seus “clientes”. 

 

Os fornecedores de drogas estão numa posição ideal para contactar aqueles que se escondem dos serviços de drogas

 

À medida que o número de mortes associadas a drogas aumenta, no Reino Unido, e enquanto as leis e políticas de drogas continuam, de forma vergonhosa, a equacionar os danos resultantes de drogas, certamente precisamos de todos os recursos para salvar as vidas daqueles que consomem drogas, dos seus amigos e das suas famílias. Caso conseguíssemos parar de insultar estes indivíduos, talvez nos fosse possível reconhecer que os fornecedores de drogas estão na posição ideal para contatar os consumidores de drogas escondidos dos serviços de drogas e excluídos da sociedade. Estão numa posição para alcançar estes indivíduos com intervenções que podem salvar as suas vidas (troca de agulhas, alumínio, naloxona) e com mensagens de redução de danos. Se alguns fornecedores estão dispostos a ajudar, porque é que estamos a impedir que o façam?

 

Apoie a redução de danos no Reino Unido! Ajude a Release a monitorizar as alterações no fornecimento de drogas no Reino Unido – e como as pessoas compram as suas drogas – que se possam verificar na sequência das restrições associadas ao confinamento, devido ao coronavírus. 

 

* Renato Masetti BA (Hons) PGCE (Dip ED), é presentemente o Training Co-ordinator da Health Outreach NHS | EPUT, coordenação e desenvolvimento de oportunidades de treino no campo de consumo abusivo de substâncias. Ren é um professor qualificado e tem experiência na área da educação de tanto adultos como jovens, em contextos diversos. Contacto: renato.masetti@nhs.net