Um Aborígene australiano com problemas relacionados com o álcool está a tentar recriar o seu estilo de vida original.

 

Um Aborígene australiano com problemas relacionados com o álcool está a tentar recriar o seu estilo de vida original.

Olá, o meu nome é Harold e eu sou alcoólico, sou também um alcoólico aborígene. Houve um tempo em que muitas pessoas pensavam que todos os aborígenes eram alcoólicos, e alguns de nós pensavam isso também. Mas desde que faço parte dos alcoólicos anónimos e estou nesta forma de vida diferente, esta vida que acredito que todas as pessoas devem ter, sei a diferença.

O que aprendi é que o alcoolismo é uma doença e nós, nativos, somos pessoas, seres humanos. E os seres humanos podem apanhar várias doenças. Muitas pessoas não adoecem, vivem a vida sem doença alguma, excepto gripes, constipações e talvez um acidente.

Agora vamos nos concentrar no aborígene e o alcoolismo. Muitos aborígenas não bebem álcool, e alguns bebem mas moderadamente, e há outros que não conseguem se controlar mesmo. A razão para isto é que eu sou geneticamente alérgico ao álcool. De forma simples, quando bebo qualquer quantidade de álcool, o meu corpo e mente reagem.

Fisicamente, o meu corpo pede mais e os meus pensamentos transformam-se. Torno-me numa pessoa diferente. Frequentemente faço coisas que não faria normalmente, e frequentemente sinto-me envergonhado pelo que estou a fazer, e sei que é errado mas mesmo assim o faço.

Não somos todos assim, há algo nos nossos genes, como alguns são asmáticos, outros diabéticos, e não interessa as suas origens. Todas as raças no mundo usam alguma droga que altera a mente, e em todos os países há pessoas que não conseguem lidar com essa droga e torna-se num problema para eles, abusam. A droga toma conta da vida dessas pessoas, que depois afecta as vidas dos que são próximos, família, amigos chegados, pessoas amadas.

Em diferentes partes deste país, todos os diferentes grupos, tribos, usavam uma droga sedativa chamada pituri. Vinha de plantas diferentes mas os efeitos eram os mesmos.  Enquanto criança via muitas pessoas que consumiam o pituri, mas só conheci uma pessoa que não conseguia a tolerar. Era uma tia minha e quando mastigava pituri ela perdia todos sentidos, não sabia onde estava e com quem estava e normalmente caminhava, por isso tínhamos de a vigiar quando as pessoas sabiam que ela estava a consumir.

A moral da história é que a dependência está nas pessoas, não nas drogas.

Os AA respeitam o nosso estilo de vida tradicional e assim ajuda a nossa gente a aceitar o desafio de recriar uma intolerância ao abuso social, cultural, espiritual e legal e a reconstruir os verdadeiros interesses e respeito Aborígene que caracterizou os antepassados.

O dr. Sylvester Minogue que introduziu os AA na Austrália custumava dizer-me: “Harold, este programa é para a tua gente, para os meus antepessados aborígenes, porque é espiritual e simples.” Reconheci isso quando conheci melhor os AA.

Quando estava no Território Norte em  1987/881 estava empregado por Kalano, o Serviço Médico Aborígene. Queria introduzir os AA na comunidade local Aborígene, todos os que falassem Inglês como segunda língua.

Sentei-me com dois iniciados e expliquei-lhes. Senti-me muito confortável com o interesse que eles estavam a demonstrar pelo que estava a dizer. Quando acabei de falar, ganhei sorrisos dos dois e depois as suas respostas: “ Isso não é novo do americano, era como vivíamos o tempo todo antes das bebidas terem chegado. À nossa maneira.” Esses dois homens encarregaram-se de espalhar a mensagem daí em diante.

A mensagem foi reforçada com a assiduidade às reuniões. Tínhamos três reuniões por semana e em média 16 aborígenes em todas as reuniões até eu ter saído seis meses depois.

Os alcoólicos anónimos resultam porque não é feito pelo homem, não é espiritual, é algo que eu acredito que está em todos nós. Resulta se fizeres com que resulte.