Um nativo fala dos seus problemas com o álcool

DENGKARNIN DA MUNTAK: Pensando nos velhos tempos

Apresentado por Betty e George
Título: DENGKARNIN DA MUNTAK
Língua tradicional do Clã  Murrinpatha
Significando “Pensando nos velhos tempos”
Papel:
Conferência Nacional de Darwin sobre Droga e Álcool
Terça-feira 15 de Junho, Quarta-feira 16 de Junho, Quinta-feira 17 de Junho, 1999
História de: George, escrita por: Betty
Olá a todos, o meu nome é George,
O meu clã é  Wakal Bengkungh.
O meu país é  Kubuyirry.
A minha língua é  Murringnarr, mas vivo em Port Keats.

Breve história

Eu nasci em 1955 no velho hospital de zinco. Tenho 4 irmãs e 5 irmãos que vivem em Port Keats. Sou casado com 4 filhos e 2 netos.
Usando a Cultura “na direcção errada”, o que quero dizer é que o Grog vem primeiro e a Cultura vem em segundo e não o contrário como sinto que devia ser. “Como à maneira antiga”.
Cresci nos anos 60 quando a Cultura era muito forte. Em wadeye havia 3 áreas:
1. A área do topo do povo era o  Marringarr e dança tradicional era Lirrga.
2. A área inferior era o  Thungurall e a dança tradicional era Wonga.
3. Uma outra era a tribo Murrinpatha e a dança tradicional era  Tchanba.
Todas as noites no dormitório ouvíamos “clapsticks” e “didjeridoos” e havia danças, canções, partilha da felicidade que havia. Cada grupo convidava quem quisesse nas suas áreas e ficávamos a noite toda assim. Isso era nos anos 60 e um pouco dos anos 70, mas depois o álcool foi introduzido em Port Keats. O council com a ajuda de  Br Andy Howly conseguiu a licença para abrir um bar. O bar era a antiga cantina. Nunca mais ouvimos cantar ou dançar depois disso.

TEMPOS DE CRISE

Quando tinha 15 ou 16 anos via os missionários a beber nas varandas e os padres a beber vinho na igreja. Estava curioso, a pensar como seria beber cerveja ou vinho. Alguns de nós, rapazes, costumavamos roubar vinho do altar para experimentar.  Deitavamos quase tudo fora porque não tinha o gosto que pensávamos. Pensávamos que ia saber como um sumo.
Nos anos 70 foi quando a cerveja foi introduzida, na altura estava quase a acabar a escola e mal podia esperar para a experimentar. Quando bebi um pouco de cerveja, o efeito que teve em mim nunca mais desapareceu. Gostei da sensação, nunca mais me saiu da cabeça.

Pedimos ao council se podíamos beber mas eles recusaram porque éramos muito jovens e argumentaram connosco, mas dizíamos que já não éramos miúdos de escola mas trabalhadores com o direito de beber um pouco depois do trabalho.

Após alguns meses de discussão o council cedeu e decidiu nos dar 2 garrafas de cerveja e 2 de sumo.  Foi aí que começou, e quando mais velho já bebia 4 garrafas de cerveja.Quando comecei a beber não ficava logo bêbedo, tinha medo do que o álcool podia me fazer. Como me podia afectar. Bem, havia pessoas que via bêbedas que andavam em lutas e a praguejar. Não queria ser como eles. Não queria que o álcool me afectasse daquela maneira por isso sabia quando parar.Quando começava a me sentir estranho era quando eu dizia a mim próprio que devia parar. Ia para casa, comia e ia ter com os outros rapazes na área.

Por volta dos 19/20 anos comecei a beber mais, gostava de beber e a partir daí piorou.  Comecei a ter problemas, discutia  com o meu pai e irmãos e havia lutas. Por volta dos 30 anos estava já fora de controle e mal conseguia controlar o que bebia. Por essa altura ia a tribunais a pagava multas.

DARWIN

Ia para o Darwin quando ganhava dinheiro no jogo e reservava um lugar. Podia ficar lá um mês.
Só ia ao Darwin para ficar bêbado. Em Port Keats há um limite de quatro cervejas. No Darwin bebia o que quisesse e o que quisesse-vinho, espirituosas. Os nativos não tinham permissão para beber nos campos.  Os não nativos podiam beber no bar e em casa. Não me incomdava isso mas incomodava outras pessoas. Perguntavam “Por que podem os não nativos fazer isto”. Havia resentimentos na comunidade porque havia diferenças.

BAR

Aberto desde as 17h até as 19h. Segunda a Sábado. Não se bebia ao Domingo.
Muitas vezes o bar fechava:
A 1ª vez fechou porque havia muita violência doméstica. Eu estava sóbrio nessa altura assim como o meu pai.
A 2ª vez foi depois da grande final da Footy e houve um luta depois do bar fechar.
A 3ª vez foi porque havia muitas lutas na Comunidade após o bar fechar.
Foi quando o Comissário do Álcool avisou a comunidade que se o bar desse mais problemas não haveria mais bar em Port Keats.
As mulheres feridas pelos maridos vinham à nossa área pedir ajuda e eu e o meu pai íamos ao council pedir um reunião para discutir:
1. Porque eram dadas cervejas extra,
2. Porque é as pessoas se embebedavam para irem para casa bater nas mulheres.
Nada foi feito pelo council. Tentámos 7 ou 8 vezes, pedimos ao council para que o Comissário do Álcool viesse falar connosco mas eles não ouviam.
Fez-nos sentir zangados, todas as noites mulheres diferentes vinham nos pedir ajuda. O meu pai pintou a cara à tradicional – a mensagem que passava era “ estou a falar a sério e vocês vão me ouvir” e foi ao bar. 4 polícias estavam lá.
O meu pai disse-lhes que a luta não era deles para não se meterem. O gerente do bar (que não era nativo) foi mandado para a rua. Entramos no bar com as mulheres e crianças. O meu pai ficou na entrada a olhar. A tv foi estragada, a mesa de bilhar partida, garrafas esmagadas.
Desde a semana em que isto aconteceu, não houve mais lutas na comunidade, não houve nada. Todas as pessoas que bebiam no bar foram para o bar agarrar quantas caixas conseguiram. Milhares de dólares de prejuízo. Anos mais tarde, depois do meu pai morrer, fomos ao tribunal e saímos como PESSOAS LIVRES. Ninguém foi para a cadeia. Foi quanto tempo demorou depois do acontecido que as coisas se resolveram.

PRESENTE

Estou sóbrio há 14 anos. Foi difícil. Um dia fui recusado no bar por ter batido na minha tia com um pau. Fui proibido de beber no bar por 3 meses. Também fui expulso de uma área para o campo inferior onde fiquei com o Raymond que era uma pessoa sóbria e o chefe da Família Ninnal ( porque o camarada morreu recentemente, o seu nome não pode ser mencionado).
Por 3 meses, andei com os 2 camaradas que falavam da sua Cultura, os seus Sonhos,  os seus Símbolos que tinham esquecido quando bebiam. O que mais me chocou foi o facto de terem mencionado como se tinham esquecido dos presentes para as crianças no Natal, o que me fez lembrar o que me tinha acontecido. Fez-me lembrar o último Natal, quando o meu filho era criança e não lhe comprei o presente de Natal. Ele queria ir brincar com os brinquedos das outras crianças mas elas não deixavam. O sentimento naquele momento foi muito, muito triste, não por mim mas pelo meu filho. E eu não fiz nada. Só me levantei, fui para o duche e tomei um banho.
Não porque tinha calor ou estava sujo mas era para misturar água com as minhas lágrimas. Chorei. Sentia-me magoado. Foi o meu ponto de viragem. Fiquei com essas 2 pessoas a ouvir as suas histórias e depois de 3 meses pude regressar ao bar novamente e disse não, disse não, disse não. Estava tão interessado na história sobre o programa que estavam a fazer, os AA, que fiquei com eles por 6 meses antes de me mandarem para Perth, a 1ª vez para um lugar chamado Holyoake. Abriu-me os olhos. Pude perceber o que era o programa e enquanto estava lá, mandavam-nos ter objectivos para quando voltássemos e a minha resposta era para voltar e ajudar a minha gente a ficar sóbria.

CONCLUSÃO

Ao longo dos anos tem sido um luta difícil mas sinto que a minha jornada está perto do meu objectivo pessoal. Deus tem me proporcionado pessoas que tiveram um papel importante na minha vida, guiando-me e sustentando ao longo do caminho.

Obrigado
George
1999 Darwin