Uma Oportunidade de Recuperar a Vida: Perspetivas sobre Reabilitação e Recuperação no Reino Unido

Fonte: Pixabay

No Reino Unido, cortes de cento e sessenta e dois milhões de libras nos serviços de drogas e álcool nos últimos três anos levaram ao encerramento de muitos centros de reabilitação residenciais ou “de dia”, ou na redução drástica de serviços. Menos pessoas estão a ter acesso a estes serviços devido a cortes ou requisitos difíceis de alcançar, estando o número de mortes por consumo de drogas ainda alto

Grande parte da reabilitação foca-se na abstinência do narcótico de escolha, existindo, no entanto, desacordo, entre aqueles que acreditam na abstinência e “recuperação” e aqueles que acreditam na redução de danos. Procurei a perspetiva das duas pessoas que frequentaram centros de reabilitação no Reino Unido, com o intuito de explorar os seus efeitos ao nível pessoal. A redução de danos na comunidade inclui troca de agulhas, testagem de drogas em festivais e intervenções de serviços de drogas. Um princípio da redução de danos passa por ir ao encontro das pessoas onde elas consomem drogas e fornecer ditos consumidores de drogas (PWUD) com as ferramentas que tornam o seu consumo de drogas o mais seguro possível, e reduzem o seu consumo caso o desejem. No entanto, algumas PWUD desenvolvem vícios altamente enraizados, e ainda que se tenham envolvido a uma grande escala com redução de danos oferecida, não têm outra escolha senão explorar abstinência como opção. É aqui que serviços residenciais de dependência podem apoiar PWUD; no entanto os serviços foram cortados em um terço em 2019. 

Reabilitação residencial varia nos serviços que oferecem, sendo que alguns seguem o programa de doze passos, ao estilo dos Narcóticos/Alcoólicos anónimos, outros oferecem uma desintoxicação médica completa do narcótico em questão, enquanto muitos oferecem atividades adicionais holísticas e de bem-estar, como yoga e jardinagem. A maioria dos programas tem conselheiros e profissionais de drogas que facilitam sessões em grupo e individuais, ajudando as PWUD a descobrir quais as possíveis razões que levam ao seu consumo de drogas e a considerar a forma como podem reconstruir as suas vidas aquando da sua partida do programa, e ultrapassar a sua dependência. 

 

Tentaram levá-los para a Reabilitação – E Eles Disseram Sim, Sim, Sim

 

Michael* falou-nos sobre a sua estadia num centro de reabilitação “de dia” numa grande cidade do norte de Inglaterra. Este tornou-se dependente de heroína após ter experimentado com drogas nos seus vintes. 

Fui referido para o centro de reabilitação “de dia” após o meu consumo de drogas se ter tornado tão mau que fiquei numa situação de sem-abrigo e perdi contacto com a minha família. Foi-me prescrita metadona e tive algumas interações com profissionais de drogas. A minha interação com estes não foi boa, na altura, mas deu-me alguma preparação para a minha estadia no centro de tratamento mais tarde. Achei que ainda que as intervenções de redução de danos tivessem boas intenções, focava-se demasiado no futuro e no bem-estar em geral. Tal pareceu-me insignificante em comparação ao tamanho da minha dependência. 

Quando estive numa situação de sem-abrigo, fui colocado num centro de acolhimento, e daí obtive a estabilidade para dar início a um programa de reabilitação. Tinha o desejo pessoal de largar a heroína de vez: a motivação estava lá devido a experiências negativas passadas. O programa de reabilitação foi mais profundo para mim, já que trabalhou a minha saúde mental e comportamentos em paralelo ao meu consumo de drogas. Ainda que o meu programa de reabilitação não tenha sido residencial, estava disposto a fazer alterações positivas na minha vida e fui bem sinalizado para programas holísticos e outras atividades como centros de meditação e Park Run. O facto de já ter um interesse neste tipo de coisas foi benéfico para a minha recuperação.

O período de reabilitação foi muito emocionalmente desafiante, a pessoa que quiser enveredar num programa de reabilitação necessita de estar pronto para tal. Não consigo pensar em qualquer outra altura na vida onde discutes em tamanha profundidade. A reabilitação no “centro de dia” funcionou para mim, pois não estava numa bolha, mas era mais parecido à vida real, com as suas responsabilidades; consegui construir a minha recuperação na comunidade onde consumia drogas. Alterei o meu comportamento e a forma como interagia com o mundo, de vez. 

 

Phillip* frequentou um programa de reabilitação residencial numa cidade costeira durante cinco meses. Também ele tinha sentido que havia batido no fundo do poço após décadas de consumo de drogas e de estar em situação de sem-abrigo. Tal como aconteceu com Michael, a reabilitação ofereceu-lhe uma oportunidade de descobrir as razões subjacentes à sua dependência. 

Quando fui para a reabilitação já não havia qualquer outra opção para mim. Estava seriamente doente por viver na rua e devido ao meu consumo de drogas. Tinha-me separado da sociedade mainstream. Fui motivado a recuperar quando me vi mais perto da morte. Tinha acesso a serviços de redução de danos e tinha trabalhado de perto com profissionais de drogas. O acesso a redução de danos ajudou-me a entrar na reabilitação, tendo os profissionais de drogas que requisitaram o meu financiamento uma excelente relação comigo e era obvio que não conseguia recuperar dentro da comunidade. Precisava de ser tirado da sociedade e começar de novo. Não tinha quaisquer estratégias para lidar com a vida sem drogas e a reabilitação foi o lugar seguro para as adquirir. 

A reabilitação deve ser considerada uma intervenção médica – precisava de uma desintoxicação médica supervisionada, aprendi a comer de novo, arranjaram-me os meus dentes e trataram-me dos meus abcessos. Também consegui passar tempo a curar a minha mente. Senti que pertencia e que estava seguro. Nunca antes na minha vida me tinha sentido seguro dessa forma. Fui capaz de explorar, de forma segura, as minhas emoções com apoio. Foi-me possível adquirir aptidões para a vida, sociais e para me preparar para o futuro e me ajudar na minha reintegração na sociedade. Não conseguiria ter tido dita aprendizagem tão efetiva se estivesse na comunidade, já que, devido a cortes de financiamento, o trabalho nela é apenas superficial. Senti-me tão apoiado para crescer e foram-me dado o amor e a compaixão que tinha estado em falta nas décadas anteriores. No entanto, muitas pessoas voltam à reabilitação após terem partido, sendo que várias frequentam a mesma várias vezes. Os serviços de drogas deveriam verificar se a pessoa está pronta a ser inserida nestes de modo a não ser desperdiçado dinheiro, caso as pessoas ainda não estejam aptas a trabalhar nelas próprias. Tenho consciência de que o custo dos meus cinco meses foi de quarenta e sete mil libras e estou muito grato por isso. Não é apenas uma questão de a pessoa deixar de consumir drogas, mas de recuperar a sua vida.

 

A reabilitação é um tratamento de drogas caro, mas é mais barato do que a prisão.

 

Ainda que a redução de danos desempenhe um papel essencial na melhoria dos resultados a nível da saúde, o trabalho de reabilitação funciona de forma eficaz para aqueles que estão motivados a parar de consumir o seu narcótico de eleição e estão preparados a discutir e refletir sobre dito consumo. Deve, no entanto, ser ressalvado, que estas PWUD que têm as suas dependências enraizadas necessitam de serviços de redução de danos mais do que nunca. Para muitos, os programas de trocas de agulhas são o único contacto que têm com profissionais de saúde. Tal deve ser tido em consideração no orçamento; a maioria das PWUD não iriam para programas de reabilitação sem o apoio de intervenções de redução de danos. 

Ainda que a reabilitação seja cara, evidências demonstram que é mais barata do que a prisão. Algumas PWUD estão presas em ciclos de atividade criminosa e consumo de drogas: atividade criminosa para financiar a sua dependência, que cessaria quando tratada de forma eficaz. Várias pessoas estão encarceradas por delitos associados a drogas, sendo, no entanto, o consumo de drogas prevalente nas prisões. Seria mais restaurador para muitos ser tratados de forma consensual em centros de reabilitação para suas dependências, de modo a alterar os seus comportamentos, em detrimento de desenvolverem dependências ainda mais enraizadas na prisão

Sabe-se que os delitos associados a drogas reduzem durante recuperação. A descriminalização de drogas e a redistribuição de recursos para a redução de danos, tratamento e outras iniciativas de saúde pública podem potencializar estes resultados e demonstrar a rentabilidade de simplesmente tratar as dependências das pessoas, em vez de as castigar. 

 

* Megan Coakeley é uma defensora da descriminalização de drogas que vive em Bristol. Esta tem um historial no trabalho em habitação e serviços de drogas, e completou recentemente um mestrado em Saúde Pública. Ela está a fazer campanha pela mudança social no que diz respeito ao consumo de drogas, redução de danos e as falhas da saúde a serem supridas. Contato: megancoakeley@gmail.com