Num contexto em que vários países e jurisdições estão revisando e transformando suas políticas de drogas, a cruzada brasileira contra a maconha é um forte componente ideológico na promoção da longa e fracassada guerra às drogas como única possibilidade de erradicação do crime e da violência. Esta campanha de direita viola os direitos das pessoas cujas vidas dependem cannabis medicinal. Essa é uma consequência imediata do pico do bolsonarismo: dificultando o acesso para a medicina salva-vidas com uma mão e promovendo tratamentos não comprovados durante uma pandemia global com o outro.
Esforços para legitimar a criminalização da maconha por meio de primers e conferências estão envoltos no disfarce do cientificismo, cheios de estatísticas mal aplicadas e interpretações deliberadamente falhas. A “ciência” tendenciosa é mobilizada para tolerar as piores práticas na política de drogas no Brasil; vale a pena repetir que a censura ao estudo da Fiocruz sobre pessoas que usam drogas pelo gabinete do ex-presidente Michel Temer em 2017 abriu um precedente nos crescentes esforços para justificar e Renovar a guerra contra as drogas no Brasil.
Desde a votação contra a reclassificação da maconha na convenção da ONU em dezembro de 2020, o governo brasileiro tem atuado por meio de seus Ministério da Cidadania e Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos para combater os esforços progressivos de descriminalização da planta.
Propaganda Anti-Cannabis
Em março, o Ministério da Cidadania publicou mais uma cartilha com argumentos contra a legalização da maconha. É a segunda cartilha sobre os supostos riscos do uso da maconha divulgada pelo governo brasileiro desde dezembro de 2020. Mais uma vez, temos que nos atentar para a linguagem do documento, a partir do título: “Argumentos Contra a Legalização de Maconha. Em Busca da Racionalidade Perdida: Uma Abordagem Baseada em Evidências Científicas”.
Comecemos pela escolha da palavra maconha, que é o termo popular para cannabis em todo o Brasil. É um termo carregado, no entanto, que carrega uma longa história de associação com crime e comportamento anti-social. A palavra vem do kimbundo makanha, e conta uma história de racismo. As primeiras leis promulgadas e aplicadas contra o uso de maconha no Brasil são do século XIX e foram elaboradas para manter africanos escravizados de fumar. O termo cannabis adicionaria um quadro mais equilibrado e imparcial ao título e evocaria a ideia de legalizar uma substância, e não uma droga de rua estigmatizada por muito tempo. Não acredito que o termo apareça no título por acaso. Sua performatividade é clara e aberta.
Outra faceta importante da cartilha é a ideia de que pode haver neutralidade na elaboração da política de drogas. De acordo com seus autores, os argumentos a favor da legalização são ideologicamente tendenciosos, e uma abordagem científica deve orientar o desenho, a implementação e o cumprimento da política de drogas. Culpar a ideologia por questões sociais e políticas é a pedra angular da retórica bolsonarista. Não estou dizendo que eles entendem de ideologia como Arendt ou Eagleton. O direitista brasileiro médio entende a ideologia como as mentiras pecaminosas dos esquerdistas que querem derrubar os alicerces da família, da tradição e da propriedade privada. Gênero na sala de aula? Ideologia de gênero. Ambientalismo? ideologia de esquerda. Direitos humanos? ideologia de esquerda. Pois bem, na nova cartilha contra a legalização da maconha os autores afirmam que existe o risco, no Brasil, “de que o debate sobre a legalização das drogas oculte as reais questões relacionadas a uma política de drogas racional e equilibrada. Podemos passar anos em um debate ideológico improdutivo, no qual as pessoas se posicionam a favor ou contra a legalização de uma droga específica com muita paixão e pouca informação.”
Não é preciso ser diplomado em linguística para entender seu argumento: a) o debate sobre a legalização vai na contramão do que os autores entendem como uma política de drogas equilibrada e racional; b) se as pessoas se posicionarem a favor ou contra a legalização, elas permitirão que a paixão anule as evidências. Indiscutivelmente, a postura pró-proibição do atual governo é bastante apaixonada? A paixão não é o problema real aqui; pode-se ser apaixonado por uma causa e muito informado sobre ela. O problema é este: o gabinete de Bolsonaro desmente e nega sistematicamente fortes evidências científicas que não corroboram suas próprias visões ideológicas. O título da última cartilha contra a maconha deixa claro: ao afirmar que seu objetivo é buscar uma suposta racionalidade perdida no debate sobre a legalização da maconha, os autores classificam as posições pró-legalização como um absurdo irracional. Esses argumentos absurdos incluem, é claro, estudos científicos revisados por pares, como a pesquisa da Fiocruz acima mencionada.
A proibição da maconha é uma política racista
Se você é um homem branco brasileiro de classe média como eu, é provável que a maconha tenha sido efetivamente descriminalizada para você há muito tempo. Estou lhe dizendo isso por experiência própria. Por mais de 22 anos, fui pego com um ou dois baseados em várias ocasiões. Mas uma vez um amigo e eu tínhamos cerca de 250 gramas conosco e estávamos voltando para casa, prestes a pegar o ônibus, quando policiais militares nos pararam e descobriram qual era a nossa compra mensal a granel. Fomos encaminhados a uma delegacia de polícia civil para autuação e, para encurtar a história, o delegado logo percebeu que o pai de minha amiga havia sido um de seus instrutores na academia de polícia. Recebemos um tapa no pulso, uma ameaça verbal de que da próxima vez ela nos jogaria na cadeia e fomos mandados embora. Isso está longe da realidade dos negros e pardos no Brasil. É apenas uma história de privilégio de classe e cor da pele, mas ilumina o problema de deixar a discrição para a aplicação da lei ao considerar os limites para uma pequena ou grande quantidade de cannabis. Ele também mostra como um código postal, a cor da pele e um sobrenome podem impedir que você tenha antecedentes criminais ou sujeitá-lo a violações de direitos humanos sancionadas pelo Estado.
Mais uma vez, digo-lhe por experiência. Perdi a conta de quantas vezes, quando parado pela polícia por fumar um baseado, me perguntaram se o(s) negro(s) com quem eu fumava haviam me vendido a erva que eu estava usando. Também não sei dizer quantas vezes meus amigos brancos e eu ouvimos de policiais que não deveríamos sair com negros de favelas e que se nossos amigos negros fossem os que “trazessem drogas para a gangue”, poderíamos “simplesmente diga a eles e tudo ficará bem”. Mas não há racismo no brasil, certo?

A Polícia Militar do Paraná se vangloria de ter prendido um homem encontrado com 4,1 gramas de maconha em uma postagem no Facebook. Mais da metade do volume corresponde a alguns rabos de baseado que ele carregava junto com um pedacinho de brotos e folhas prensados. A postagem é de 13 de abril de 2021. Fonte: Facebook.
O primeiro ministro da Cidadania de Bolsonaro, Osmar Terra, um feroz opositor da descriminalização e legalização, disse em 2019 que não deveria haver um padrão oficial para definir a quantidade de drogas que distingue um fornecedor de uma pessoa que a possui para uso pessoal. Sua justificativa foi que “desmoraliza a polícia, o ministro da Justiça e o governo [dizendo] que policial não tem competência para definir o que é traficante”. Terra está basicamente dizendo “vamos deixar para os policiais decidirem o grau de punição para uma pessoa pega com 2, 20 ou 200 gramas de maconha”. É por isso que não fui preso por fornecer drogas – e é também por isso que a quantidade média de maconha que justifica o crime de tráfico de drogas no estado de São Paulo é 39, 8 gramas. Isso é mais ou menos o que eu fumava por semana quando morava no Brasil. Isso significa que as pessoas estão cumprindo pena na prisão por terem sido pegas com uma quantidade muito pequena de maconha.
Neste momento, o debate sobre a reforma da maconha no Brasil está parado. Não é apenas hora de pressionarmos as autoridades a avançar com isso, mas também é hora de gritar bem alto que descriminalização e a legislação são apenas os primeiros passos. Devemos também começar a implementar e elaborar projetos para reparar os danos que a guerra às drogas tem causado a indivíduos, famílias e comunidades. E, inevitavelmente, assim que a maconha for finalmente legalizada, começará a longa luta contra sua gentrificação.
*Felipe Neis Araujo é um antropólogo brasileiro preocupado com políticas de drogas, violência de estado, racismo estrutural e reparação de desigualdades históricas. Ele escreve um artigo mensal para TalkingDrugs. Entre em contato com ele em neis.araujo@gmail.com.


