Desde que a campanha do presidente eleito Luiz Lula da Silva começou a ganhar força, organizações da sociedade civil têm exigido que ele priorize a revisão das atuais políticas de drogas assim que assumir a presidência. Em setembro, ativistas do Iniciativa negra para políticas de drogas entregou a Lula um manifesto que pedia o fim das guerras às drogas que contribuem para encarceramentos em massa e massacres violentos no Brasil. Outras vozes fortes agora se juntaram ao coro e deram peso à demanda por mudanças. No dia 5 de novembro, um grupo composto por ministros, advogados, juízes e um médico publicou uma carta aberta no Brasil maior jornal, Folha de São Paulo, detalhando as falhas políticas de ter uma política de drogas alinhada com o sistema de justiça criminal, escolha que contribuiu para elevar o Brasil a um pódio infame: agora somos o país com o terceira maior população prisional no globo.
Os últimos dados mostram que quase 3 em cada 10 presos brasileiros estão privados de liberdade devido a crimes relacionados com drogas. O número de presos cresceu ironicamente desde 2006, quando Lula assinou uma lei de drogas que deveria ter criado uma distinção legal entre pessoas que usam drogas e pessoas que as vendem. Critérios específicos, como os limites permitidos para posse, não foram definidos na lei, deixando a critério dos policiais e juízes distinguir entre uma quantidade “pequena” e “grande”, influenciando se o caso de um indivíduo foi por posse ou tráfico de drogas. Desde que a lei foi promulgada, vimos o número de pessoas presas por tráfico triplicar – de 11% do total de prisões em 2006, ano da promulgação da lei, para 25% em 2015, 10 anos após a sua implementação. As mulheres enfrentam uma situação ainda mais terrível, com por aí 60% das mulheres presas presas por tráfico de drogas. É o país com terceiro maior número de mulheres presas no mundo, depois dos Estados Unidos e da China.
A carta aberta reúne as vozes de ministros do Superior Tribunal de Justiça, destacados advogados, desembargadores e Drauzio Varella, o médico que trabalhou no famigerado Penitenciária do Carandiru (considerada uma das piores prisões do mundo), acolher e validar acréscimos ao debate sobre políticas de drogas. Uma das principais reivindicações da carta é a dura punição imposta aos filhos de mulheres encarceradas, que representam 74% da população carcerária feminina. Muitas dessas mulheres são acusadas de tráfico de drogas ao tentar levar drogas para as prisões para seus maridos, filhos ou parceiros.
Como os autores colocá-lo, quando o Estado prende uma mãe por tráfico de drogas, tanto a mulher quanto seus filhos são punidos, criando um “futuro lamentável para ambos, também nas mãos de facções criminosas, sedentos pelos soldados que perpetuarão seu empreendimento”. Esse é outro ponto alto da carta: a afirmação de que as prisões, aliadas à atual política de drogas e desigualdades sociais, possibilitam o florescimento das redes do crime organizado. As penitenciárias brasileiras agregam um grupo díspar de presos, desde aqueles ligados a organizações criminosas internacionais, até aqueles que cometeram o crime social de terem nascido na pobreza, pegos na hora e lugar errados com uma pequena quantidade de drogas, seja para si ou para vender para pagar as contas.
Como também reconhecem os autores da carta, o poder executivo não tem a capacidade de simplesmente impor nova legislação. Vivemos em uma democracia, não importa o quanto o atual e futuro governo tenha tentado mudar isso. O que Lula pode fazer é organizar a base parlamentar para trabalhar democraticamente na elaboração de projetos de lei e políticas que impeçam o processo de encarceramento em massa de ser alimentado pela atual política e legislação sobre drogas. O novo presidente eleito não pode esquecer a dívida do Estado com as famílias, indivíduos e comunidades devastadas por sua guerras de drogas racistas. A mudança na política e na legislação deve ser guiada por um forte princípio: reparações.


