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Myro Rolim: educação sobre drogas como emancipação

Myro Rolim é um grande exemplo de como a educação e a política de drogas se cruzam. Originalmente um professor de Sociologia e História para uma escola do setor público em São Paulo, Brasil, sua jornada pedagógica o apresentou a Paulo Freire e sua abordagem emancipatória da educação. Autora do texto fundacional na educação crítica “Pedagogia do oprimido”, Freire entendeu que a educação deve ser um processo dialógico com “os oprimidos”, onde um professor ajuda os alunos a compreender criticamente a realidade de sua situação e a criar soluções com base em suas experiências vividas.

Mais essencialmente, a pedagogia crítica de Freire rejeita a ideia de que o professor percebe os alunos como um “recipiente vazio” a ser preenchido com conhecimento estático; eles trazem o conhecimento para a vida, demonstrando como os alunos podem assumir o controle e alterar seus arredores. Quando Myro foi convidado a participar do Projeto Quixote, um programa de assistência social fundado por educadores sociais que oferece um programa educacional e de saúde pública adequado a crianças e adolescentes em situação de rua, ele passou a “ver a educação como um movimento emancipatório, um movimento de luta e reivindicação”:

 

“Já trabalhei em escolas de periferia onde havia questões relacionadas a drogas, onde as pessoas usavam muita droga. Isso me deixou mal porque a educação nunca soube como responder a essas questões, exceto com estratégias quebradas, como PROERD [uma campanha do tipo “só diga não” feita pela polícia]. Existe uma fixação com esse tipo de estratégia, e ao agir de forma punitiva contra os alunos você leva essa mentalidade proibicionista e punitiva para dentro da sala de aula, e cara isso começou a me mexer.”

 

Voltando para a sala de aula enquanto trabalhava no Projeto Quixote, ele começou a se ver produzindo e reproduzindo as mesmas perspectivas proibicionistas em sala de aula e começou a se educar sobre alternativas.

É com essa visão que Myro ensinou e, consequentemente, se desiludiu com o modelo de educação vigente no Brasil. Depois de um colega professor chamar a polícia para um dos alunos por fumar um baseado, ele os criticou por suas ações: “Não devemos permitir um processo de ensino que autorize a entrada da polícia e repreenda as crianças”. Ao ser repreendido pelos colegas professores, que achavam que o aluno merecia o destino de usuário de drogas, abandonou a sala de aula e se dedicou à saúde pública.

Sua formação docente provou ser útil para sua nova carreira, principalmente para aprimorar e coordenar ações de outros ativistas. Myro compartilhou que o que aprendeu como professor foi a importância de pensar e implementar uma educação emancipatória para pessoas que usam drogas, especialmente para aquelas com relacionamentos problemáticos. Criticamente, o ensino é uma via de mão dupla: “como podemos levar as ideias e práticas sobre educação sobre drogas para a pedagogia e o ensino geral?”

Discursos proibicionistas são repetidos e reciclados nos ambientes educacionais atuais

 

Myro se juntou ao comitê de educação da ABRAMD, Associação Brasileira Multidisciplinar para o Estudo das Drogas, que trabalha para entender como a educação sobre drogas pode ser integrada nas escolas e outros espaços educacionais. Desde então, tornou-se também membro da DIV3RSO: Redução de Danos, Saúde Mental e Direitos Humanos; do Movimento Brasileiro de Redução de Danos (MBRD) e a Rede Latino-Americana e do Caribe de Pessoas que Usam Drogas (LANPUD).

Além de sua participação em múltiplas redes e grupos, Myro realizou muitas intervenções de redução de danos, especialmente na área problemática da Cracolândia, na região central de São Paulo. Lá, em 2014, foi convidado a conduzir um programa, por meio da Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, de ligação de pessoas em situação de rua a serviços sociais que auxiliassem na moradia e no emprego. No entanto, a educação permaneceu no centro de suas ações:

 

“A educação no Brasil tem delegado a conversa sobre drogas a outras instituições, sejam elas PROERD, associação de amigos, iniciativas sociais, mas sempre com uma perspectiva proibicionista que reforça exclusões, estigmas e preconceitos sobre pessoas e territórios.”

 

Criar uma alternativa para a abordagem punitiva, repressiva e disciplinadora existente para a educação sobre drogas é visto como vital por Myro. Devemos, muito simplesmente, educar as pessoas sobre as drogas: a melhor forma de usá-las, o que é classificado como uso problemático, como, onde e quando obter ajuda. Essas informações poderiam gerar uma economia considerável para o sistema público de saúde: “A falta dessa educação faz com que as pessoas já estejam em um estágio muito avançado quando procuram os serviços de saúde, pois não tiveram a educação e os meios adequados para usar esse serviço antes." Possibilitar a coleta de indicadores sociais em torno das políticas de drogas ajudaria a monitorar e avaliar sua eficácia, algo que não é feito atualmente no Brasil.


 

A segunda parte explorará a compreensão de Myro Rolim sobre a ideologia da proibição, como ela prejudica as pessoas que usam drogas e como impedir que ela se reproduza perpetuamente.

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