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PNUD Brasil tolera abstinência forçada e patologização religiosa de pessoas que usam drogas

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – Brasil dá mais um passo em seu alinhamento ideológico com o gabinete de Jair Bolsonaro. TalkingDrugs relatou recentemente sobre o Apoio do governo brasileiro a instituições religiosas de reabilitação como parte de uma política de drogas que prioriza a abstinência sobre a redução de danos e a guerra contra as drogas sobre a descriminalização e regulamentação. Nós também relatamos A lealdade institucional e moral do UNODC e do PNUD à guerra contra as drogas de Bolsonaro, e os perigos desta parceria. Este artigo trata de um edital de licitação divulgado pela agência da ONU e pelo Ministério da Cidadania que convidou instituições de pesquisa a se candidatarem a uma bolsa de R$ 570,000 (£ 71,618) para realizar um estudo sobre os benefícios da religião, espiritualidade e fé para o tratamento de pessoas que usar drogas. 

Os termos de referência da licitação defendem a ideia de que há uma epidemia de uso de drogas no Brasil, hipótese refutada por um estudo previamente censurado pelo governo brasileiro. O apoio institucional e financeiro do PNUD a esta iniciativa é um aceno de aprovação não apenas para a ala religiosa do governo, mas para bancada evangélica do brasil como um todo. A linguagem do anúncio está repleta de termos estigmatizantes. Na seção “Justificativa”, um único parágrafo contém a palavra “abuso” três vezes, e não há uma única menção à redução de danos. O uso de drogas é traduzido como “dependência química”, e caracterizado como uma doença mental. Os autores elogiam o que entendem como os benefícios da religião para “prevenção, diagnóstico, tratamento e prognóstico da dependência química”, e citam um estudo metodologicamente duvidoso para afirmar que “indivíduos que têm base religiosa/espiritual usam menos drogas”. Essa exaltação da espiritualidade e da religião tem um público claro: os donos de comunidades terapêuticas contratadas pelo governo oferecer tratamento - isto é; trabalho forçado e punição física e psicológica para pessoas que usam drogas.

 

Promoção de Danos em Nome de Deus 

 

Há uma longa história de uso e imposição da fé e da religião no tratamento de pessoas que usam drogas e o enquadramento do uso de drogas na categoria de pecado moral. Em meados do século XIX, no contexto das Guerras do Ópio, os missionários médicos britânicos consideravam “Cristianismo como sua erva mais valiosa no tratamento do tabagismo de ópio. Os médicos britânicos decidiram que a cura definitiva para o vício em drogas estava dentro do viciado individual.” Eles assumiram que o povo chinês, sendo 'pagão', “inerentemente carecia de fibra moral e que o cristianismo teria que ser infundido em cada paciente antes que ele tivesse força de caráter para se reformar”. A bolsa de estudos e o jornalismo nos mostram que muitas pessoas comprometidas com programas de reabilitação baseados na fé fogem das organizações na primeira oportunidade que encontram, seja em Brasil, UK ou de USA.     

 

Clarissa Levy denunciou os abusos físicos e psicológicos sofridos por adolescentes internados em uma comunidade terapêutica religiosa em Minas Gerais, Brasil. Nesta foto de Vitor Shimomura, um estagiário mostra uma vassoura quebrada usada para castigar os meninos. O jovem disse a Levy que a vassoura permaneceu em um dos quartos como um lembrete de que os internos poderiam ser punidos fisicamente caso quebrassem alguma regra. Fonte: Agência Pública/Autor: Vitor Shimomura.   

 

A violência física e simbólica é inerente aos processos de patologização religiosa das pessoas que usam drogas, e o histórico de violência contra as pessoas que usam drogas nas comunidades terapêuticas brasileiras deve ser motivo de preocupação para as agências da ONU parceiras do governo brasileiro, especialmente agora que a internação involuntária foi legalizada novamente por Bolsonaro em 2019. A partir de julho de 2020, o governo autorizou a internação involuntária de crianças a partir dos 12 anos a programas de reabilitação.  

De fato, o relatório do Conselho Internacional de Controle de Narcóticos para 2020 desaprova a política de Bolsonaro internação de usuários de drogas para reabilitação “sem o consentimento do paciente, a pedido de familiar ou responsável legal ou, na ausência absoluta do responsável, servidor público da área da saúde que verifique a existência de motivos que justifiquem a medida.” Mas, embora o Conselho “desencoraje o uso de tratamento compulsório para a reabilitação de pacientes que sofrem de transtornos relacionados ao uso de drogas”, a linguagem do relatório também enquadra o uso de drogas como uma patologia. Talvez surpreendentemente, o Conselho não parece estar preocupado com o fato de que as organizações brasileiras de reabilitação não estão sujeitas à responsabilidade; nenhuma agência os supervisiona.   

Atuando em parceria com o Ministério da Cidadania, reduto da bolsonarismo, o PNUD está ajudando a fornecer um viés de confirmação que legitima a guerra às drogas e a vitimização de pessoas vulneráveis ​​no Brasil, indo contra a suposta missão da ONU de apoiar os direitos humanos em todo o mundo.

 

*Felipe Neis Araujo é um antropólogo brasileiro preocupado com políticas de drogas, violência de estado, racismo estrutural e reparação de desigualdades históricas. Ele escreve um artigo mensal para TalkingDrugs. Entre em contato com ele em neis.araujo@gmail.com

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