Mais pessoas trans são assassinadas no Brasil do que em qualquer outro país do mundo. Embora o governo tenha criminalizado a queer e a transfobia há três anos, os ataques violentos dentro do país continuaram a aumentar. 2021 foi o ano mais mortal do Brasil já registrado, com o país representando um terço dos assassinatos relatados no mundo de pessoas com variantes de gênero.
Sob o presidente Jair Bolsonaro, o governo tem buscado esmagar trabalho de redução de danos. Polícia realiza massacres sancionados pelo estado nos bairros difama pelo uso de crack. Até maconha medicinal mal conseguiu escapar da proibição.
Matuzza Sankofa cresceu na cidade de Itabira, no sudeste do país. Sua mãe não aceitou sua identidade de gênero, expulsando-a de casa quando ela tinha 14 anos. Sankofa viveu em abrigos até os 18 anos, quando não teve outra opção a não ser viver nas ruas.
Eventualmente, em uma casa alugada por pessoas queer e com variantes de gênero, ela encontrou hospedagem e uma introdução aos movimentos de justiça. Quando lhe foi oferecido um emprego na grande cidade de Belo Horizonte, fornecendo serviços de redução de danos para mulheres trans, particularmente aquelas desabrigadas e envolvidas no trabalho sexual, ela finalmente encontrou um lugar para chamar de lar.
Em 2019, Bolsonaro cortou a redução de danos da política nacional de drogas e restabeleceu a internação involuntária, e Sankofa ficou desempregada. Ela decidiu se mudar para a cidade de São Paulo, onde hoje coordena o Núcleo de Práticas de Redução de Danos da É de Lei. Ela também é diretora de Casa Chama, que oferece apoio social e jurídico para pessoas trans em São Paulo.
Sobre Zoom, Filtrar conversou com Sankofa sobre a luta pela redução de danos, moradia e abolição no Brasil. A entrevista foi traduzida do português e editada para maior duração e clareza.
Felipe Neis Araújo: Presidente Bolsonaro explicitamente promove transfobia. Como as políticas de redução de danos para pessoas trans podem ser promovidas nessas condições? O governo faz alguma coisa para apoiar sua segurança e bem-estar?
Matuzza Sankofaz: O ódio contra os corpos trans foi um dos elementos do campanha eleitoral do atual presidente. No entanto, as últimas eleições gerais também registraram números recordes de pessoas trans concorrendo a um cargo, eleitos em todo o Brasil. Os políticos do establishment não estão interessados ou mesmo capazes de entender nossos direitos, necessidades e demandas. Eles não estão familiarizados com nossas experiências. Por isso precisamos ocupar esses espaços: para que tenhamos voz na formulação e implementação de políticas públicas.
A política atual é cuidar de nós apenas quando estamos doentes e morrendo. Esta é uma escolha política. Não existe uma política de saúde efetiva para pessoas trans no Brasil. E isso inclui cuidados de saúde mental; não existe sequer um atendimento efetivo de saúde mental para pessoas cis.
Na Casa Chama, temos dois programas de saúde muito bem-sucedidos. One é um programa integral através do qual nossos pacientes podem acessar terapia hormonal e todos os outros serviços de que possam necessitar. O outro programa oferece apoio psicológico individual e coletivo. Alcançamos pessoas em todo o Brasil, em lugares que o estado brasileiro não pode ou não vai alcançar. Provamos que é possível, com os poucos recursos que temos. Portanto, o Estado deve reconhecer o trabalho das organizações da sociedade civil e financiá-las para isso.
“Um corpo trans comprometido com uma instituição religiosa que condena a inconformidade de gênero e prega a abstinência de drogas será colonizado novamente.”
Em sua experiência de trabalho com pessoas trans que usam drogas, como está falhando a atual abordagem de apenas abstinência?
Sankofa: No atual governo, iniciativas de redução de danos têm sido sistematicamente atacadas e demolido. Enquanto isso, o governo federal tem investido maciçamente em comunidades terapêuticas, operadas por instituições religiosas. E um corpo trans comprometido com uma instituição religiosa que condena a inconformidade de gênero e prega a abstinência como a única relação saudável com as drogas será colonizado novamente. Eles ouvirão novamente que existe uma maneira adequada de viver a vida, que não é a maneira como esse corpo trans está vivendo. Isso é violência.
A meu ver, a legalização de todas as drogas é uma questão urgente. Nunca impediremos que todos usem drogas, por isso precisamos construir políticas baseadas na realidade e em evidências, não em princípios morais conservadores. Precisamos de uma política de drogas que atenda às pessoas que querem largar as drogas, àquelas que gostariam de largar mas não conseguem por conta própria e também àquelas que não querem largar. A política atual suporta apenas os dois primeiros.
Precisamos oferecer redução de danos para as pessoas que querem continuar usando drogas, e não criminalizá-las. As prisões estão lotadas de negros e pobres que foram pegos com uma quantidade insignificante de drogas e processado por negociar. Portanto, precisamos enfrentar essas duas questões: a legalização de todas as substâncias e a abolição das prisões.
“A moradia vem em primeiro lugar. Toda estratégia de cuidado vem depois de uma moradia digna.”
Podemos dizer, então, que a política de drogas do Brasil está causando danos muito maiores do que as próprias drogas?
Sankofa: O uso de drogas no Brasil não é abordado pelas lentes da saúde pública. É armada para fins sociais e políticos. Pessoas violentadas e encarceradas por posse de drogas são generificadas e racializadas. Muitos deles são sem-teto. Precisamos transformar isso e fazer uma política de atenção às pessoas que usam drogas.
A primeira coisa que uma pessoa precisa para cuidar de si mesma ou de outra pessoa é uma moradia adequada. Isso deve estar muito claro agora com a pandemia global. Habitação vem em primeiro lugar, e toda estratégia de cuidado vem depois de uma moradia digna.
Mulheres, trans, negros, pobres e sem-teto são alvos de posse de quantidades absurdamente pequenas de substâncias proibidas todos os dias neste país. Se você for para a Cracolândia, onde tenho uma equipe trabalhando com a população de rua, vocês vão ver que são negros, pobres, trans. Essa chamada guerra às drogas é uma desculpa para cometer genocídio contra certos corpos.
Este artigo foi originalmente publicado pela Filtrar , uma revista online que cobre o uso de drogas, políticas de drogas e direitos humanos através de uma lente de redução de danos. Seguir filtro ativado Facebook or Twitter, ou inscreva-se no seu newsletter .


