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No Brasil, 80,000 prisões em um ano é o que o UNODC chama de 'excelente'

No início do ano passado, TalkingDrugs informou sobre o parcerias entre agências da ONU e o governo brasileiro em uma tentativa de dar novo fôlego à fracassada campanha por uma sociedade livre de drogas. O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) estão patrocinando as sangrentas guerras antidrogas do presidente Jair Bolsonaro com fundos e recursos humanos, trabalhando em conjunto com o governo brasileiro para estabelecer a Centro de Excelência para Redução do Fornecimento de Drogas Ilícitas (COE). O primeiro relatório do COE, detalhando como os traficantes de drogas se adaptaram durante a pandemia do COVID-19, foi publicado em dezembro passado. Lendo-o, a princípio, não tive vontade de comentar. Assistindo a eventos paralelos em 65ª Sessão da Comissão de Narcóticos da ONU, no entanto, onde a fetichização da redução da oferta de drogas foi frequentemente exibida, juntamente com o compromisso anual de projetar e implementar novas estratégias para desmantelar os mercados de drogas ilegais, senti o desejo de discutir algumas das conclusões trazidas no relatório. Qual foi o impacto do combate à oferta ilegal de drogas no primeiro ano da pandemia no Brasil? Uma resposta curta: o encarceramento de mais de 80,000 mil pessoas, a maioria negras e pardas com baixo nível de escolaridade e, portanto, com poucas chances de ingressar no mercado de trabalho legal durante aquele que é um dos crises econômicas mais duras que o Brasil já experimentou.

Uma das lições que tanto o UNODC quanto o governo brasileiro aprenderam desde que estabeleceram seu chamado centro de excelência é que os empreendedores ilícitos são resilientes. Eles também desenham e implementam estratégias de adaptação a situações adversas, como evidenciado no relato: 

“O Brasil continua sendo uma região estratégica para o trânsito de cocaína sem grandes mudanças nas rotas tradicionalmente estabelecidas antes da pandemia da COVID-19. Existe uma forte resiliência por parte das organizações do narcotráfico com grande capacidade de adaptação e diversificação de rotas.” 

Os traficantes buscavam novas rotas por terra e rios. Eles mudaram suas rotas para outras regiões do Brasil e seus países limítrofes. Eles moveram lotes menores entre os pontos. As forças policiais continuaram apreendendo drogas proibidas, porém, o que o governo brasileiro alegou ter sido uma abordagem bem-sucedida, mesmo quando não há evidências para fazer backup a noção de que as apreensões e prisões contribuem para a redução do crime, violência e outras formas de danos.

O relatório sugere que a principal razão pela qual as pessoas se envolvem no tráfico de drogas é a falta de oportunidades econômicas alternativas. Esta não é uma descoberta nova, nem é apenas uma peculiaridade brasileira. Evidências mostram é uma realidade enfrentada em todo o mundo. O aumento do encarceramento, no entanto, não pode ajudar a resolver essa situação. 

O sistema de justiça criminal é sobrecarregado pela orçamento da guerra das drogas e aqueles apanhados nele devem superar significativa dificuldades de inserção ou reinserção no mercado de trabalho formal quando saem da prisão. Uma pergunta permanece: por que não canalizar as enormes somas investidas em uma política fracassada que destrói comunidades em iniciativas que possam enfrentar os desafios enfrentados por pessoas vulneráveis? Porque se a pobreza está levando as pessoas a se colocarem em empreendimentos econômicos perigosos, por que o Estado está usando recursos humanos e financeiros para colocar e manter os pobres atrás das grades? Esse fenômeno de encarceramento em massa relacionado à política de drogas é realmente uma falha política ou é um projeto proposital?     

Também é contra-intuitivo que o UNODC e o governo brasileiro tenham unido forças para confinar as pessoas durante a pior experiência pandêmica na história contemporânea. Era razoável aumentar a terceira maior população carcerária do mundo quando As mortes por COVID estavam aumentando, criando um terreno fértil para infecções? Mas é preciso lembrar que o Brasil é governado por um presidente cuja atitude em relação ao número de mortos do COVID-19 foi definida em suas próprias palavras como: “E daí?”. Por sua vez, o UNODC reivindicações que existem maneiras melhores de lidar com questões relacionadas às drogas do que o encarceramento, mas parece haver uma grande lacuna entre o discurso e a prática aqui. É amplamente conhecido que Proibicionismo e encarceramento andam de mãos dadas. Então, por que a legalização, abastecimento seguro, e soberania nunca são opções para consideração pelo UNODC?  

Um retrato da redução da oferta ilegal no Brasil durante a pandemia não seria preciso sem referências ao outro lado da guerra das drogas. E não me refiro a um lado bonito e brilhante onde todos estão felizes. Não. Existem dois lados dessa moeda: um é o encarceramento, o outro são as execuções extrajudiciais. Em junho de 2020, o Supremo Tribunal Federal proibiu batidas policiais nas favelas do Rio de Janeiro devido à pandemia, e em um mês a taxa de pessoas mortas a tiros caíram 70%. Um ano após a medida, porém, tanto a polícia civil quanto a militar passaram a desconhecer o STF e participaram de duas chacinas, uma na cidade do rio de janeiro e um em São Gonçalo. Quase 40 pessoas foram assassinadas por policiais em ambos os episódios. Agora adivinhe a cor da pele das vítimas, sua idade e situação econômica. 

Analisando os dados e o contexto, como os especialistas do UNODC e do COE podem recomendar mais policiamento, treinamento e vigilância – todos alimentando um ciclo vicioso de encarceramento, violência e morte? Não parece simplesmente fazer mais da mesma estratégia fracassada que vem sendo executada há décadas? As mesmas recomendações antigas foram lançadas - mas agora vamos seguir as criptomoedas e a darknet também! Que abordagem moderna. Eles também poderiam ter concluído pedindo às pessoas que ficassem atentas ao próximo ano.

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