Poucos dias depois de votar contra a reclassificação da cannabis no Comissão das Nações Unidas sobre Narcóticos em dezembro de 2020, o governo brasileiro lançou uma cartilha sobre os supostos riscos decorrentes do uso de maconha. Com base em fontes tendenciosas e repleto de imprecisões, desinformação e estereótipos, o documento afirma que não existe cannabis medicinal. O documento vincula o uso e o tráfico de maconha à violência e à criminalidade, mas não há uma palavra sequer sobre a violência de Estado decorrente de uma política de drogas que legitima as operações policiais em favelas e comunidades carentes, operações que se tornaram cruzadas contra negros e pardos, tirando a vida de crianças e manter seus parentes atrás das grades.
Ao contrário de alguns de seus países vizinhos, o governo brasileiro continuou a bloquear os esforços para descriminalizar a maconha. Em 2017, quando Argentina legalizou maconha medicinal, o presidente brasileiro de direita Michel Temer censurou a publicação de um estudo pela Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) que questionava a própria existência de uma epidemia de drogadição; o governo foi acusado de suprimir dados que questionariam sua guerra contra as drogas.
O atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, prometeu investir na guerra às drogas desde que começou a campanha para a presidência em 2018, um voto que ele renovou na eleição. Em 2019, durante seu primeiro ano no cargo, Bolsonaro assinou um decreto estabelecendo seu próprio tipo de política de drogas. A nova legislação exclui as abordagens de redução de danos adotadas anteriormente, baseando-se na aplicação da abstinência coercitiva. Na prática, isso canaliza o dinheiro dos contribuintes para instituições exclusivas de abstinência e remove o apoio a pessoas que usam drogas.
O governo brasileiro também alterou a composição do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas, excluindo representantes da sociedade civil; 13 cadeiras foram removidas, incluindo as da Ordem dos Advogados do Brasil; o Conselho Federal de Assistência Social; o Conselho Federal de Medicina; o Conselho Federal de Enfermagem; o Conselho Federal de Psicologia; a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência; e a União Nacional dos Estudantes. Também foram extintas as cadeiras antes ocupadas por um antropólogo, um jornalista e um artista.
Após o decreto, Bolsonaro sancionou uma nova lei de drogas para endurecer as penalidades para os fornecedores e permitir a internação forçada e involuntária de pessoas que usam drogas em tratamento. A medida foi aplaudida e apoiada por deputados e senadores envolvidos com a indústria da reabilitação, que, no Brasil, são fortemente ligados a organizações cristãs; Só em 2019 o Ministério da Cidadania destinou 70% de seus recursos para programas de reabilitação de evangélicos e católicosinstituições, algumas delas de propriedade de parlamentares conservadores.
Guerra às Drogas Direita, Esquerda e Centro
Mas a extrema direita não é a única responsável pela necropolítica das drogas no Brasil. Ex-governos progressistas abriram caminho para a escalada do policiamento, da militarização e da violência relacionada às políticas de drogas e sua aplicação. Segundo a Human Rights Watch, a lei de drogas assinada em 2006 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, membro fundador do Partido dos Trabalhadores, de esquerda, teve um sério impacto no aumento dramático da população carcerária que se seguiu. A lei de 2006 substituiu a anterior, sancionada ainda em 1976 durante os pesados anos da ditadura militar, que estabelecia penas de reclusão e multa por porte.
A lei de 2006 introduziu uma distinção entre usuários e fornecedores com base na posse de pequenas ou grandes quantidades de drogas, mas o texto não definiu quantidades ou limites precisos, deixando assim espaço para fiscalização tendenciosa. Quando são feitas mudanças na legislação sobre drogas que dependem do arbítrio dos policiais, o viés geralmente deve ser esperado. Abuso de poder não é surpresa.
"Esta lei é um cheque em branco para a polícia prender pessoas vulneráveis e enquadrar os pobres, favelados e negros como traficantes e não como usuários”, diz o advogado criminal Joel Luiz Costa, nascido e criado na Favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro. “Num país racista e dividido como o nosso, onde as pessoas são julgadas pelo código postal, esse tipo de critério não seria um mecanismo de justiça. [… Um] garoto negro, sem trabalho formal, em um bairro de gueto à noite, em um lugar dito ser controlado por uma determinada facção, será necessariamente enquadrado como traficante, independentemente da quantidade (de drogas) que tenha.
Em 2005, 9% da população carcerária brasileira cumpria pena por posse de drogas. Em 2014, esse número aumentou para 28%. De acordo com o mais recente Pesquisa Nacional de Informações Penitenciárias, publicado em junho de 2020, 32% das pessoas encarceradas no Brasil - 232,000 pessoas - estavam cumprindo pena por delitos relacionados a drogas, um aumento de 23% desde a aprovação da lei de drogas de 2006. Entre a população de mulheres presas, mais de 18,000, ou 57%, cumprem pena por tráfico de drogas. 214,000 homens na prisão, ou 31% da população carcerária masculina, estão cumprindo pena por porte de drogas. Não há dados disponíveis sobre o número de negros encarcerados por delitos de drogas, mas 66% da população carcerária brasileira é formada por negros e pardos.
Bolsonaro e seu gabinete estão abertamente comprometidos com a escalada da guerra às drogas, com o aumento da militarização das forças policiais e com a abstinência forçada no lugar da redução de danos. Essa ideologia, juntamente com políticas de drogas, leis e repressão mais repressivas, provavelmente abrirá caminho para um aumento da punição extrajudicial e do encarceramento, que já são epidêmicos no Brasil.
*Felipe Neis Araujo é um antropólogo brasileiro preocupado com políticas de drogas, violência de estado, racismo estrutural e reparação de desigualdades históricas. Ele escreve um artigo mensal para TalkingDrugs. Entre em contato com ele em neis.araujo@gmail.com.


