Em meio a uma pandemia global e uma onda progressiva mundial de drogas descriminalização para fins médicos e uso pessoal adulto, a ONU está fazendo parceria com o governo brasileiro, aparentemente em uma tentativa de reformular sua campanha “Mundo sem drogas”.
No 26th de dezembro de 2020, um seminário internacional marcou o lançamento de um projeto piloto, o Centro de Excelência para Redução do Fornecimento de Drogas Ilícitas, uma parceria entre o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD), com apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). A fase piloto está prevista para durar 18 meses, e o Centro deverá ser incorporado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. Nem é preciso dizer, é claro, que a linguagem adotada pelo Centro descreve as próprias drogas ilegais – e não o proibicionismo, o punitivismo e o encarceramento – como um problema social a ser superado pela redução da oferta.
Há muitos problemas com essa parceria infeliz. No plano ideológico, desnuda a vontade da extrema direita brasileira de confirmar seu viés e provar que há uma epidemia de uso indevido de drogas no Brasil que legitimaria o uso da força para combater a oferta e o uso de substâncias ilícitas. O recente censura ao grande estudo da Fiocruz sobre o uso de substâncias ilícitas no Brasil diz muito sobre essa postura.
Outro ponto a ser considerado é que parceria com agência da ONU dá respaldo internacional ao projeto de Bolsonaro políticas de drogas draconianas. O UNODC tem apoiado descriminalização e desencarceramento na última década - uma postura que causou polêmica no passado recente—, algo muito distante das políticas de drogas de Bolsonaro, mas sua programas voltados para o Sul Global ainda estão fortemente orientados para a capacitação de aplicação da lei em vez de focar em outras áreas da assistência social que foram delegadas ao campo do policiamento ao longo dos anos. Não por acaso, o seminário que inaugurou o Centro de Excelência para Redução da Oferta de Drogas Ilícitas reuniu muitos profissionais ligados às polícias e ao sistema penitenciário, com poucos pesquisadores presentes.
Em um relatório de 2019 sobre questões relacionadas às drogas, a ONU afirma que “o policiamento que visa os traficantes de drogas mais violentos pode reduzir a violência ao criar um poderoso impedimento ao comportamento violento”. É isso que a ONU afirma aprenderam nos últimos dez anos. O que aprendemos nesses últimos 10 anos de policiamento dos chamados traficantes de drogas violentos no Brasil, porém, conta uma história diferente.
Membros da Sessão Especial da Assembléia Geral da ONU sobre o chamado Problema Mundial das Drogas, em 1998, endossaram políticas proibitivas de drogas. Fonte: UNODC
“Libertando” a Sociedade das Drogas, Estilo Brasileiro
A guerra contra as drogas à brasileira is uma representação macabra da necropolítica tropical de extrema-direita. Sua coreografia traz corpos negros e pardos para o palco principal, onde eles se abaixam, esquivam e morrem de balas. Ele legitima ações como soldados do exército disparando mais de oitenta balas de alto calibre em um carro, matando um músico de 46 anos que levava sua família para um chá de bebê no Rio de Janeiro, porque o confundiram com um membro de gangue. Ser negro e dirigir no Rio de Janeiro é um risco. Os negros e pardos são sempre suspeitos de serem criminosos, membros de gangues, ameaças à sociedade. E se eles são suspeitos de serem criminosos, suas vidas são dispensáveis, e eles se tornam um jogo justo para o policiamento do gatilho. Na última década, a polícia do estado do Rio de Janeiro sozinha matou 9,000 cidadãos e mais de três em cada quatro pessoas assassinadas por policiais eram negras. E como o TalkingDrugs relatou anteriormente, a pandemia do COVID-19 não impediu os policiais de visando pessoas negras.
A justificativa para esses assassinatos “acidentais” é sempre baseada em supostos erros. Soldados e policiais pensam que algum homem negro é traficante ou membro de gangue porque está andando nas ruas de uma comunidade pobre ou parado na esquina. Eles atiram nele. Se ele sobreviver, eles fazem perguntas. E eles podem muito bem estar carregando substâncias ilícitas para que possam falsificar provas em suas operações rotineiras e justificam prisões e uso de violência.
governador suspenso do Rio de Janeiro, Wilson Wizel, em campanha para o cargo, disse que sob seu governo “[a] polícia fará a coisa certa: mire na cabecinha [de um bandido] e … fogo! Só para ficar no lado seguro." Ele estava falando sobre atirar em pessoas que são flagradas portando rifles, mas, como sabemos, os policiais tendem a confundir muitos objetos diferentes com armas. Se você é negro e é visto nas ruas carregando um skate, uma broca ou até pipoca em um saco de papel, oficiais ou soldados podem confundi-lo com uma arma ou drogas ilícitas e se sentirem autorizados a atirar em você.
O próprio Witzel subiu em um helicóptero junto com policiais das forças especiais da Polícia Civil para caçar supostos membros de gangue na cidade de Angra dos Reis. Este é o tipo de operação desastrosa e sádica que. leva a morte a comunidades carentes. Normaliza medidas surreais e desesperadas como a de Yvonne de Mello, que dirige um projeto educacional na Favela da Maré, na cidade do Rio. Depois de anos sendo pega no meio do fogo cruzado, ela conseguiu um sinal instalado no telhado para alertar os atiradores da polícia em helicópteros que o prédio é uma escola. Não podemos perder de vista que a Favela da Maré é o antigo bairro de Marielle Franco, a vereadora assassinada por milicianos (que são, coincidentemente, ligado à família Bolsonaro).

A placa no telhado do Projeto Uerê, na Favela da Maré, diz “Escola. Não dispare". Se Witzel e os policiais tivessem se dado ao trabalho de ler algumas das cartas escritas por crianças que moram na Maré, saberiam que helicópteros e franco-atiradores não os deixam seguros. Em vez disso, eles não gostam dos helicópteros da polícia porque “eles atiram e as pessoas morrem.” Fonte: Instagram.
Bolsonaro havia alertado que sob seu governo pessoas suspeitas de envolvimento com o tráfico de drogas”vão morrer nas ruas como baratas, e é assim que deve ser.” Podemos acusar Bolsonaro de muitas coisas, mas não podemos negar que ele está cumprindo sua promessa em relação à guerra às drogas. O presidente brasileiro, fã de Augusto Pinochet quem publicamente elogia torturadores, pode definitivamente se gabar de ser especializado em matar. Seu fetiche pela política de violência patrocinada pelo Estado está bem representado em um projeto de lei que tenta transformar em lei desde seus primeiros dias no Palácio da Alvorada. Se aprovada, a legislação permitirá que juízes suspendam julgamentos de policiais condenados por homicídio se eles alegarem legítima defesa e o juiz entender que eles usou força devido a medo desculpável, surpresa ou emoção intensa. Em 2019, seu primeiro ano no cargo, brutalidade policial atingiu o pico. Em 2020, policiais foram responsáveis por 25% dos homicídios no estado do Rio de Janeiro, matando 1,239 pessoas. No mesmo ano, policiais do estado de São Paulo pessoas mortas 814. Para deixar claro, o Brasil é composto por 26 estados no total.
A esperança é a última a morrer
É importante acompanhar os resultados das parcerias governamentais. O UNODC tem uma responsabilidade que não deve ser tomada de ânimo leve: a agência pode optar por apoiar a guerra contra as drogas no Brasil ideológica, financeira e institucionalmente. Se for essa a escolha, haverá sangue, haverá cadáveres.
A outra opção, mais esperançosa, é se tornar um aliado crítico, que dissuade seu parceiro de fazer escolhas erradas e o apoia a encontrar uma maneira melhor de lidar com seus problemas - certificando-se de que percebam que o problema é com eles mesmos (em caso do Brasil, suas políticas de drogas e aplicação da lei), e não com uma epidemia imaginária de dependência de drogas no Brasil. Essa é a postura que devemos esperar do UNODC. Grandes esperanças, eu sei, mas como diz o ditado brasileiro, “a esperança é a última que morre”.
*Felipe Neis Araujo é um antropólogo brasileiro preocupado com políticas de drogas, violência de estado, racismo estrutural e reparação de desigualdades históricas. Ele escreve um artigo mensal para TalkingDrugs. Entre em contato com ele em neis.araujo@gmail.com.


