Sou Natan Hermínio, um jovem negro, Brasileiro, nascido e criado na favela, e que diariamente me encontro na necessidade de me esquivar dos problemas de exclusão social e o racismo no meu país. Tive a oportunidade de participar num intercâmbio entre o Brasil e a Bélgica através do projeto'Gante x Vila Cruzeiro', que ocorreu durante o 'Gent Youth Capital 2024'.
Este projeto tinha como meta, através de um trabalho sociocultural, reunir cinco jovens da Vila Cruzeiro, uma das favelas do Rio de Janeiro caracterizada por abandono social e racismo institucionalcom jovens de alguns bairros da cidade de Gent como Ledeberg, Nieuw Gent, Rabot e Gent Dampoort. Queria assim tornar possível diversos encontros entre jovens socialmente vulnerabilizados, de lugares diferentes, porém com alguns pontos comuns, para expressarem artisticamente o que sentem vivendo marginalizados diante de uma sociedade que os oprime e escolhe não dar os apoios que têm por direito.
Visitamos vários espaços que apoiam o desenvolvimento social de jovens moradores de bairros e adjacências ('Juidhuis', que significa "casa de jovens") com atividades direcionadas ao lazer, esporte, arte e educação. No fim de todas as visitas, compilamos ideias e expressões dos participantes, inclusive nós da Vila Cruzeiro, descrevendo dez tópicos de temas importantes e comuns, como a “guerra às drogas”. O objetivo era levar estes conhecimentos para um encontro com Benjamin Dalle, o ministro belga da juventude, para revelar os sentimentos daqueles que são frequentemente esquecidos.
Sobre as casas de jovens
A Bélgica tem várias casas de jovens pela cidade que oferecem diversas atividades e espaços de convivência - um contraste claro da nossa realidade. VZW Jong Kaizerpark, situada próxima ao centro, possui um grande espaço público para eventos, um campo de basquete com torneios premiados e áreas internas com sofás, videogames e uma cozinha.
Casa 09, localizado a 500 metros do Jong Kaizerpark, fica dentro de um antigo supermercado, e oferece uma pista de skate, campo multiuso, cinema e estúdio musical, promovendo a expressão artística dos jovens.

Jeugdhuis Nieuw Gante, no bairro Nieuw Ghent, é a única casa da região a atender jovens em situação de vulnerabilidade social. Oferece amplos espaços internos, um palco para apresentações artísticas e um estúdio musical.
VZW Jong El Paso, num bairro com uma grande comunidade turca, organiza jovens por faixas etárias e condições sociais, promovendo ações comunitárias e oferecendo atividades como kickboxing, lazer, educação e esportes.

Perto de El Paso estão VZW Jong menos um e VZW Ocup Sint-Jozefkerk. A Jong Minus One foca na introdução dos jovens ao esporte, especialmente kickboxing, e possui instalações esportivas e um salão para eventos.
A Ocup Sint-Jozefkerk transformou uma antiga igreja em um centro de atividades educativas, com aulas de boxe, áreas de convivência e um estúdio musical, além de um espaço para doações.

Também há VZW Jong Dampoort, próxima a uma escola, oferece atividades esportivas, educativas e de lazer, além de doações e um espaço reservado para recém-gestantes. VZW Jong Ghent em Actie, focada em jovens de 10 a 17 anos, proporciona inclusão social e participação em atividades formativas, incluindo cinema, estúdio musical e debates em formato de podcast.

Reflexões sobre Gent e Rio de Janeiro
'Ghent x Vila Cruzeiro' surgiu do desejo de proporcionar aos jovens de Gent, um espaço para suas diversas formas de expressão, semelhante à necessidade sentida pelos jovens do Rio de Janeiro, que também carecem de um lugar onde possam ser ouvidos. O projeto chega com o intuito de torná-los protagonistas e participantes ativos na articulação de uma sociedade onde eles são incluídos, em vez de marginalizados. Silenciados pelas ações do racismo e suas variadas formas de se pôr num território majoritariamente branco, torna-se quase impossível adquirir o sentimento de esperança e autoconfiança, e ver se como um ser capaz.
Com cerca de 19% de sua população nascida no estrangeiro, a Bélgica se depara hoje em dia com uma população imigrante que representa uma grande parte da mão de obra de pessoas que saíram dos seus países de origem em busca de uma alternativa no país. Para muitos, a Bélgica é também a antiga capital colonial: através dum poder violento e sangrento, dizimaram gerações inteiras no Congo, Ruanda e mais, alimentando o seu império com as riquezas extraídas de lá. Hoje, turcos, marroquinos, argelinos, tunisianos, congoleses e várias outras dezenas de povos de antigas colonias continuam a construir e sustentar um país que os via como inferiores e subjugados.
Isso é semelhante ao contexto brasileiro. Antes, durante e após a colonização portuguesa, a população originária indígena e a afrodiaspórica foram as principais fontes de exploração e produção de riqueza do país. Este passado cruel perdura até hoje. Os vários regimes e governos sucessivos brasileiros abusam da mão de obra dessa população; hoje em dia, essa estrutura de opressão ainda se mantém, espelhando e ditando os caminhos futuros da nossa sociedade.
Com a juventude, o ideal era haver representação dessa população que tivesse impacto e refletisse a diversidade da comunidade inteira. Mas isto não é a realidade. A criação e manutenção das políticas e serviços públicos é restrita a uma porção privilegiada da sociedade, deixando a outra altamente vulnerável aos desejos de quem não os entende, ouve, ou identifica como uma peça importante na montagem coletiva da comunidade.
A questão que permanece é como é que os jovens, invisibilizados pelos poderes opressivos, se encontra e se vê num futuro próximo?
Não podemos ignorar a opressão de classe
É impossível ignorar a realidade da opressão da classe, que atira muros e criminaliza quem mais precisa de apoio. Vemos isso em Gent e Rio de Janeiro. Mas em outros aspectos, existem diferenças importantes entre as cidades. A falta de equipamentos públicos de assistência social de qualidade, como espaços de convivência ou casas de jovens, que podem ser ferramentas fundamentais no suporte à população jovem vulnerabilizada, torna mais difícil essa missão de levar direitos às pessoas que são negligenciadas.
Em Gent, apesar de todos os problemas enfrentados, a juventude ainda pode contar com o cuidado do Poder Público, organizações da sociedade civil, ou parcerias entre esses dois universos, que trabalham em função da mudança do quadro atual dentro das comunidades onde está concentrada a massa que mais precisa de acesso. As casas da juventude são mais que centros de convivência juvenil, são também meios de acesso aos mais variados tipos de situações na vida, administradas por profissionais que atuam nas organizações responsáveis por esse trabalho, atribui o serviço de apoio social a rotas eficientes que facilitam a confiabilidade nos serviços prestados. Estou falando da ação de suporte à introdução dos jovens a espaços de educação, ou mesmo para subverter a lógica de que arte não é uma prática educativa e eficiente. Assim como o esporte e a comunicação são práticas de extrema importância para garantir alternativas a essa população que, tal como no Rio de Janeiro, mesmo que não com a mesma letalidade, ainda convive com a guerra às drogas. Sem o suporte e a oportunidade apropriados, a juventude se vê na necessidade de comercializar substâncias tomadas como ilegais, correndo risco de perderem a liberdade e assim também a capacidade de atuação social.
Em Gent, vemos organizações que trabalham na reinserção da população egressa na sociedade, atuando diretamente na inclusão dos mesmos em espaços de trabalho, evitando que estes retornem às ruas, sem opções de atividade. Esse é um exemplo que poderia ser seguido pelo Brasil, mas este falha diariamente na reinserção dessa população, obrigando-os a procurar serviços informais, sem garantias e renda fixa, aumentando a possibilidade de retorno ao mercado ilegal de drogas, ou mesmo acabar em situação de rua.
Vejo a possibilidade dessas práticas serem aplicadas no Brasil a nível nacional, mas, para isso, precisamos reformular as propostas de políticas públicas entendendo para quem está sendo direcionado os serviços, pois estamos falando de mais de 7,500 pessoas em situação de rua na cidade do Rio de Janeiro, e outra grande parte, aglomerada de forma precária em favelas e espaços periféricos. Sabemos que os serviços públicos são mal distribuídos propositalmente pelo fato de uma considerável parcela da sociedade, que precisa disso, já ser invisibilizada e esquecida por esse mesmo sistema há séculos.

O estado deve intervir
A avaliação que fica é a seguinte: comparando a situação política atual de Gent com Rio de Janeiro, percebemos que há um abismo entre essas duas realidades no que diz respeito às ações dos órgãos governamentais direcionadas à população.
Se as agências públicas de Rio de Janeiro tivesse mais interesse em trabalhar em conjunto com organizações da sociedade civil, como se vê na cidade de Gent, teriamos a possibilidade de diminuir mais a quantidade de pessoas que necessitam de serviços de assistência social para sobreviver. Estas organizações já exercem um papel essencial em apoiar gente jovem e vulnerabilizada; elas precisam de ser celebradas, financiadas e apoiadas pelo estado.
Como podemos transformar positivamente nosso quadro social atual? Qual é o papel efetivo que o poder público deve desempenhar para alcançar essa transformação? Até quando as organizações não governamentais continuarão a preencher as lacunas deixadas pelos órgãos públicos? Essas perguntas são cruciais, especialmente quando nos deparamos com a realidade de milhares de pessoas no Rio de Janeiro buscando uma vida digna, confrontadas com a negligência institucional. É hora de definir um caminho claro para garantir que nosso país se afaste definitivamente do cenário da pobreza. A colaboração coletiva é essencial: precisamos agir agora, de forma unida, para fazer mais e melhor pela nossa sociedade.


