O recente anúncio de financiamento adicional para uma vacina “anticocaína” levantou preocupação em organizações brasileiras de redução de danos. Especialistas da região questionam a eficácia da vacina, bem como as repercussões que sua implementação pode trazer para um contexto já desafiador.
O calixcoca vacina, como é conhecida, foi desenvolvida e patenteada pela Universidade de Minas Gerais desde 2015. A vacina funciona essencialmente produzindo anticorpos que se ligam à cocaína que entra no corpo, impedindo-a de passar pela barreira hematoencefálica e impedindo que seus efeitos psicoativos sejam sentidos pelo usuário. Com testes clínicos em roedores demonstrando resultados bem-sucedidos, a Universidade está finalizando a aprovação ética para testes de calixcoca em primatas.
Histórias de vacinas antidrogas não são incomuns: na verdade, a mesma Universidade mencionou pela primeira vez o interesse por essa tecnologia em 1996. O que preocupa é o interesse da prefeitura de São Paulo, a maior cidade do Brasil e da América do Sul. Um comunicado de imprensa recente anunciou um investimento inicial de 4 milhões de reais (cerca de $ 820,000 USD) de “apoio irrestrito” no desenvolvimento da vacina na esperança de que em breve ela seja testada em humanos. A Secretaria de Saúde de São Paulo agora tem a tarefa de identificar quais pessoas devem ser alvo de sua implementação.
São Paulo tem lutou por muito tempo com uso problemático de drogas e consumo de crack, com Cracolândia, um mercado de drogas a céu aberto no centro da cidade, muitas vezes alvo de políticas públicas. O lista de abordagens implementadas na região vão desde inovadores, programas premiados com foco em justiça social para respostas que dependem da força policial militar e estratégias de tolerância zero. Atualmente, as políticas antidrogas parecem estar alinhadas com o lado punitivo do espectro: o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, tem ativamente chamado para a prisão de todos que usam crack em público. Nesse contexto, o recente interesse e investimento na vacina soaram alarmes em organizações de redução de danos.
Questões práticas
Conversando com pesquisadores e organizações no Brasil, há várias preocupações sobre como uma vacina de crack/cocaína seria usada.
TalkingDrugs e Youth RISE falaram com o Centro Comunitário É de Lei, uma organização que abriga e defende pessoas que usam drogas, bem como distribui materiais de redução de danos em São Paulo. A coordenadora de pesquisa, Karin di Monteiro, não pareceu surpresa com a notícia, dizendo que é comum ouvir falar de vacinas desse tipo sendo propostas.
“Uma vacina é uma tecnologia para epidemias, mas, neste caso, é uma questão de controle comportamental. Seria um 'tratamento' que controla, ou visa controlar, o comportamento de uma pessoa ou de um determinado grupo de pessoas na sociedade”, afirmou.
Ainda não está claro como a vacina funcionaria em humanos e como seria usada pelo sistema público de saúde. “[Calixcoca] não é claro em seus efeitos e dosagem: uma pessoa em tratamento teria que refazer a vacina a cada dois meses”, disse Monteiro.
O efeito bloqueador da vacina também significa que a abstinência seria o único modelo de recuperação da cocaína. “Existem, na prática, muitas implicações éticas. A falta de debate sobre como as pessoas usam substâncias, quem são e como reagiriam à introdução de tal tecnologia são questões importantes a serem entendidas quando se fala em vacina”, acrescentou.
Também não está claro o que aconteceria em caso de recaída para os vacinados com calixcoca. As pessoas ainda poderiam consumir grandes quantidades de cocaína ou crack para sentir novamente seus efeitos psicoativos.
“Uma droga não pode simplesmente ser neutralizada, você está apenas fortalecendo a barreira hematoencefálica. A droga ainda está agindo em seu corpo e pode causar outros efeitos não psicoativos em outras partes, como seu sistema digestivo ou cardiovascular”. Embora a vacina bloqueie os efeitos psicoativos da droga, ainda podem ocorrer efeitos colaterais, como paradas cardíacas ou aumento da pressão arterial, mesmo que você não esteja se sentindo alto.
O que o projeto de desenvolvimento da calixcoca parecia perder é o deslocamento potencial do uso de drogas: as pessoas podem simplesmente usar outros estimulantes não baseados em cocaína, como metanfetamina ou MDMA, para simular os efeitos psicoativos pretendidos.
“Ou você desenvolve uma vacina para todos os estimulantes, ou essa tecnologia não vai funcionar na prática”, comentou Monteiro.
Uma arma de controle social
Existem sérias preocupações com a patologização do uso problemático de crack e a implementação de uma abordagem de saúde liderada pela tecnologia para responder a um fenômeno que é um fracasso social. “Fico pensando em como essa vacina poderia ser usada como arma de controle social. As pessoas terão que usá-lo se estiverem em tratamento?” perguntou Felipe Neis Araujo, professor do Departamento de Criminologia da Universidade de Manchester.
Já houve alguns incidentes flagrantes de abusos dos direitos humanos de pessoas que usam drogas, feito em nome da saúde. Em 2018, uma mulher em situação de rua e dependente de drogas em Mococa, uma pequena cidade do estado de São Paulo, foi esterilizado à força depois de receber uma sentença por posse de drogas.
“O Governo de São Paulo promove a ideia do crack e da cocaína como uma patologia a ser 'curada' com uma vacina quando sabemos que quando as pessoas estão usando drogas de forma problemática, estão usando para várias questões sociais e psicológicas – coisas que um vacina não cura”, acrescentou Araújo.
“E se esta vacina for usada por 'comunidades terapêuticas', que são organizações altamente problemáticas… disse Araújo.
As clínicas de reabilitação religiosas são usadas há muito tempo no Brasil para “tratar” a dependência de drogas, muitas vezes punir pessoas através de trabalho forçado ou agressão física. Centros de tratamento de drogas são abastecidos por Políticas da era Bolsonaro o que facilitou a internação forçada de pessoas que usam drogas e canalizou quantias significativas de fundos de tratamento de drogas para essas instituições evangélicas e cristãs.
O apoio da Secretaria de Saúde de São Paulo à vacina ocorre em um momento em que a administração municipal sistematicamente recursos locais de redução de danos desmantelados que forneceu respostas mais holísticas às necessidades de saúde das pessoas que usam drogas de forma problemática. Calixcoca abordaria a questão superficial do uso de drogas, mas não impactaria as condições que levam ao uso problemático de drogas, como falta de moradia, apoio comunitário ou atendimento psicológico.
Para Araujo, o anúncio do financiamento da vacina em São Paulo é uma tentativa de ocultar a atual abordagem da justiça criminal da cidade para o uso de drogas como uma intervenção de saúde. “Se uma abordagem de saúde é realmente pretendida, por que o governo não apóia organizações de redução de danos que tenham experiência em trabalhar com essas populações-alvo?”.
“Não seria nada irreal para mim prever um cenário em que as pessoas acusadas de porte de drogas tenham duas opções – ou você receberá a vacina ou será incriminado e preso. Em última análise, corre-se o risco de a vacina se tornar uma arma legal, outra forma de violência contra a liberdade e a soberania das pessoas”, disse Araujo.
Combatendo a raiz do problema
O desenvolvimento e a implementação da calixcoca devem ser abordados com cautela, considerando as complexas implicações sociais, éticas e de saúde pública que ela acarreta no Brasil. No entanto, a vacina já foi elogiado na mídia local como uma solução para o vício em crack. “A repercussão é o que nos preocupa. Há muito mais pessoas aceitando esta notícia para tratar a 'doença da cocaína'. São reações demagógicas que acham que essa [vacina] vai acabar com a Cracolândia.” disse Monteiro.
O Brasil tem uma história sombria de empunhar políticas de drogas para controle social. Estudos indicam que a atual “Lei de Drogas”, implementada em 2006 pelo então presidente Lula, que descriminalizado posse pessoal de drogas, na verdade gerou um "explosão" no número de pessoas presas por crimes relacionados ao narcotráfico. Desde a reforma, as taxas de encarceramento aumentaram em 27%, com quase metade de todas as condenações por tráfico até 2015. Na prática, o perfil racial da polícia nas ruas exacerbou o encarceramento em massa de negra e indígena comunidades com sentenças mais longas, que particularmente mulheres impactadas. E enquanto a Lei de Drogas de 2006 será reavaliada pelo Supremo Tribunal Federal Este mês, há um tratamento histórico nitidamente punitivo aos brasileiros usuários de drogas.
Promover uma vacina como a solução para a dependência de crack/cocaína perde a raiz do problema. Isso alimentaria a ideia patriarcal de que as pessoas que vivem com drogas são doentes, incapazes de tomar decisões e precisam de ajuda, mesmo que essa ajuda seja forçada e venha por meio de internação involuntária. “Queremos ajudar essas pessoas a superar o vício. Mas o que acontece é a reprodução de estigmas. Não vejo essa vacina como uma solução absoluta, sinceramente vejo como mais um problema.” disse Araújo. “Espero estar muito, muito errado”.
A equipe de pesquisa que desenvolveu o Calixoca não respondeu aos nossos convites para entrevistas. Esta peça também foi publicada em Drogas falantes/Juventude RISE.


