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O peso da inação: as mães que lutam na guerra contra as drogas

Movimento Mães de Maio no Brasil, protestando contra a violência estatal.

Embora esse texto não seja sobre mim, acho importante trazer algumas informações a meu respeito.

Meu nome é Jéssica, tenho 31 anos, nasci e cresci no Complexo de Favelas do Alemão, na cidade do Rio de Janeiro. Sou uma pessoa LGBTQIA+, não tenho filhos e sou ativista pelos direitos humanos.

Eu gostaria de começar falando sobre ativismo - mais especificamente, sobre o que leva alguém a se tornar ativista. No meu caso, essa foi uma quase-escolha. Enfatizo o “quase” porque, embora essa tenha sido uma escolha como muitas outras que fiz, às vezes, essa decisão surge no meio da noite com o pé na porta, forçando-te a participar numa luta que ninguém jamais te pediria para entrar.

Hoje, este texto não é sobre mim. Escrevo sobre os movimentos cada vez maiores de mães e outros familiares que, de uma hora para outra, têm sua vida transformada e precisam lutar pela memória das vítimas da guerra contra as drogas, e pelos direitos dos seus desaparecidos. De acordo com a 17ª edição do Relatório Anual Brasileiro de Segurança Pública, 83% dos mortos pela polícia no Brasil em 2022 eram negros, e 76% deles tinham entre 12 e 26 anos. Esses números revelam não apenas um detalhe muito importante de quem é executado pela polícia; mostram também como estes assassinatos deixam um rasto de sangue e dor em tantas mães, familiares e amigos cujas vidas são violentamente atravessadas pela dor da perda.

 

Enfrentando um Estado letal

Nem toda a gente que tem um familiar assassinado se torna num ativista. Mas, em muitos momentos, o Estado é tão eficaz nas práticas de execução, matando mais do que uma vez a mesma vítima. Tiram-lhe a vida e, para justificar o injustificável, matam sua humanidade, transformando-o em alguém indigno de viver dado a sua culpabilidade por um crime (seja um tão inócuo como a posse de droga), tornando alguém “matável”.

Assim, matam também a sua memória: a memória de alguém como filho, irmão, pai, ou profissional, é suprimida. Para a polícia ou o estado, o que interessa era quem essa pessoa era nesse momento final: alguém cometendo um crime, que tinha que ser parada ou controlada - pouco importa como.

Estas mortes múltiplas e o luto agravado convoca as mães à luta. Não é sobre ser forte, ser “guerreira”, não ter medo. É sobre mães e familiares tão feridas e com tantas perdas que a única coisa que resta é lutar. Lutar para recuperar a memória roubada, lutar para alcançar a justiça (que quase nunca chega), lutar para que sua perda seja a última e que ninguém jamais sinta novamente tamanha dor.

Quanto sofrimento, doenças e perdas uma mulher, uma mãe, tem de suportar para seguir mudando as estruturas?

Em maio 2014, o jovem Johnatha de 19 anos, filho de Ana Paula Gomes, foi assassinado próximo da sua casa na favela do Manguinhos por um polícia da UPP - Unidade de Polícia Pacificadora. Nesse momento que deveria ser de luto, o choro é interrompido. É preciso provar que Johnatha não tinha envolvimento com o crime organizado; se fosse o caso, então a sociedade deveria aplaudir o polícia que o privou de vida e futuro. Mais um bandido removido da nossa comunidade.

A vida da Ana Paula foi possuída pela urgência da luta. E como ela, várias outras mães se juntaram para prevenir mais mortes físicas e simbólicas de vários jovens. Ela tornou-se uma das líderes do Movimento Mães de Manguinhos, e desde então procura justiça para o seu e para tantos outros filhos, engolidos pela máquina do estado. Ela, como muitas outras mães que constroem os movimentos de familiares de vítimas, não tiveram a possibilidade de fazer luto ou de processar a perda; em vez disso, ela se coloca como uma base para outras, acolhendo a dor de tantas, dividindo o fardo atirado sobre seus ombros.

Em março deste ano, quase 10 anos depois, o policial que executou Johnatha não será julgado por assassinato premeditado;em vez disso, responderá a um homicídio qualificado, reduzindo a gravidade do crime, fingindo então que este roubo de vida foi nada mais do que um acidente. E assim, mais uma dor, mais um luto a ser processado se inicia.

 

Ainda são realizadas vigílias para Johnatha e outras vítimas da violência estatal. Fonte: Mães de Manguinhos.

 

Os movimentos de mães e mulheres

Quando falo de lutar por memória e por justiça, incluo um gênero bem definido. No Brasil, assim como em toda a América Latina, os maiores movimentos de familiares de vítimas que existem hoje foram fundados ou são compostos maioritariamente por mulheres: mães, avós, filhas, sobrinhas.

Se a “pátria” é como um pai ausente que ignora suas obrigações de cuidado e reconhecimento sobre seus filhos, empurrando-os como um problema para a margem das suas vidas; as mães tornam-se “mátria”, base e pilar minimizando os impactos de abandono, mobilizando-se para garantir o acesso ao direito mais básico de todo o ser humano: o direito à vida. Quem nunca ouviu falar das “Mães da Praça de Maio“, o movimento de mães argentinas que procuram respostas e querem justiça para os mais de 30.000 desaparecidos vítimas da ditadura de 1976 no país?

Ao longo da história, as mulheres não tiveram apenas que lutar pelos seus direitos duramente conquistados, mas também tiveram que cuidar e lutar pelos direitos de todas as pessoas que amavam. Isso diz muito sobre o poder e a capacidade revolucionária de uma mulher. Ângela Davis falei sobre isso em conferência na Bahia, dizendo que “quando uma mulher negra se move, toda a estrutura da sociedade se move com ela”.

No entanto, apesar de essa ser uma afirmação de empoderamento com a qual eu concordo absolutamente, também significa que, mais uma vez, o peso da mudança da sociedade e de todos está sob os ombros de mulheres - sobretudo, mulheres negras, indígenas, LGBTQIA+, com deficiência, entre outras interseccionalidades.

Se se sente que nunca foi obrigado a escolher que tipo de luta travar, certamente o privilégio da sua não-escolha contribui para o peso, a dor, o sangue, o luto e o cansaço das mulheres que não tiveram escolha e foram obrigadas a lutar. Esse é o peso da inação: se queremos que os sistemas que criam violência, que executam crianças e jovens pelo mundo fora mude, teremos de suportar o peso da luta em conjunto. Só assim nos certificamos que as mulheres e mães do mundo não terão de lutar sozinhas.

 

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