A primeira edição do Futuro Coca festival aconteceu em Bogotá, Colômbia, no dia 31 de julho. O evento reuniu diversas pessoas de todo o mundo da coca, com o objetivo de educar as pessoas sobre a planta e seus usos e, em última análise, reduzir o estigma que a planta e o país carregam atualmente. O festival foi um convite à reflexão sobre como a proibição prejudicou as comunidades e a imaginar possíveis alternativas para o futuro da coca. Destacou o potencial da planta em diversos campos, desde alimentação até moda; também incentivou os participantes a mergulharem fundo em uma planta que tem muito a oferecer, mas que tem sido tão incompreendida há décadas.

A estigmatização da planta de coca começou antes mesmo de a cocaína ser produzida, quando as instituições coloniais começaram a proibi-la, a fim de erradicar as crenças indígenas, para quem foi e ainda é, planta de poder central em sua cultura e cosmovisão. No entanto, a Guerra às Drogas liderada pelos EUA foi o que levou ao fenómeno da produção de cocaína e do tráfico transnacional, onde a planta de coca começou a ser equiparada apenas à cocaína. Ambos foram considerados perigos iguais.
Como resultado, as pessoas que historicamente usaram e plantaram coca foram perseguidas pelo Estado ou instrumentalizadas pelas economias ilegais, principalmente camponeses, afro-colombianos e povos indígenas. Esta situação intensificou a violência, causando mortes, prisões, discriminação e muitas outras consequências sociais derivado desta falsa equivalência. O arbusto de coca rapidamente deixou de ser o “mato do pensamento alegre” (la planta para pensar bonito) tornou-se “o arbusto que mata”.
O negócio da cocaína revelou-se tão lucrativo que passou a ser utilizado como forma de financiamento da guerra na Colômbia, gerando violência no campo e nas cidades, bem como danos ambientais causados pelo desmatamento para sua produção. Ao mesmo tempo, foram tomadas ações para exterminar a planta e também seus produtores, como fumigações com glifosato, criminalização do seu comércio, prisão e até morte de quem o utilizou. Isto criou uma realidade imaginada em torno da coca e da Colômbia que ainda está profundamente enraizada no nosso pensamento colectivo, permeando as instituições governamentais, os meios de comunicação e os produtos culturais, e permeando profundamente a identidade nacional colombiana.
Futuro Coca é uma proposta educativa para todas as idades que visa mudar esse estigma: tenta reavaliar a planta e reencontrá-la; recuperá-lo das histórias criadas pela Guerra às Drogas e colocá-lo ao serviço da humanidade. Nas palavras de Carmen Posada, uma das organizadoras do evento, “este é um espaço para perceber que a folha de coca pode ser fonte de vida e não de morte”.

O potencial diversificado da Coca
Através de diferentes iniciativas de diversos intervenientes de todos os setores e disciplinas, como os têxteis, a culinária, a medicina, a arte e as visões ancestrais, foram criados espaços de aprendizagem para partilhar com os cidadãos. As pessoas puderam provar, interagir e utilizar a coca em suas diferentes formas e preparações. Propostas gastronômicas como queijos, refrigerantes, cervejas e sorvetes nos permitiram reconhecer as delícias da gastronomia à base de coca. A partir de conversas sobre seu potencial como fertilizante natural ou como tingimento de tecidos, falamos também sobre sua regulamentação, ancestralidade e construção de novas narrativas.
Participamos de rodas de partilha com cocaleiros da comunidade indígena Nasa, que nos falaram sobre a importância da planta e suas experiências de luta. Partilharam o seu sentido de respeito pela coca e como esta se transforma em mambe: este é o produto da mistura de farinha de coca e cinza de yarumo ou calcário. Os homens e mulheres da NASA salientaram que podemos recorrer ao mambe quando procuramos a palavra orientadora, a clareza de pensamento e para melhorar o bem-estar físico e mental. Entre a música e a arte, convidaram-nos a questionar-nos sobre a relação entre a coca, a sociedade, a regulação, a ciência e a ancestralidade.
O Futuro Coca também pretende influenciar a narrativa global em torno da Colômbia. Há uma excelente oportunidade para nos tornarmos pioneiros de um novo cenário que se desenrola diante de nós e para transformar a Colômbia numa força que pode continuar a compreender e desenvolver os benefícios da planta. Como destacou Carmen: “a coca deveria ser motivo de orgulho, deveríamos sentir orgulho no exterior de sermos os maiores produtores de coca do mundo, de poder exportar e mostrar seus benefícios, além das coisas ruins que foram pintadas durante décadas ”.
A energia feminina da Coca
A coca foi apontada ao longo da festa como uma planta associada ao feminino: segundo a tradição indígena da comunidade Nasa, era falada como “a planta da palavra doce”. Isso se refletiu em seu espírito: ver tantas mulheres como protagonistas dessas propostas, desde suas organizadoras, cozinheiras, comerciantes, artistas, cocaleiras indígenas, entre outras, parecia uma manifestação de sua força feminina.
Aprendi muito e tive experiências muito gratificantes graças a este festival; permitiu-me conhecer a fábrica e todas as pessoas que acreditam e lutam todos os dias por um mundo diferente. Fico com muitas reflexões, mas também com muitas perguntas, o que apenas enfatiza a necessidade de conversas cada vez mais profundas. É necessário continuar a desestigmatizar a planta e os seus usos, para levar estas discussões aos bairros, escolas, universidades e, de um modo mais geral, a toda a vida. Como colombianos, esta é a nossa responsabilidade: a coca tem um papel crucial na construção da paz no nosso país e na obtenção de justiça para todas as comunidades afectadas pela proibição e pela guerra, aqui e no estrangeiro.
Não podemos negar que a cocaína também faz parte da história da coca e da Colômbia. E embora a coca não seja apenas cocaína, ela é derivada desta planta. Uma conversa em torno de uma possível regulação é essencial, pois a sua existência, consumo e produção nunca desaparecerão. Devemos reconhecer como sociedade que a culpa não é das substâncias, mas sim do tratamento injusto que lhes foi dado durante anos devido à proibição e às suas forças violentas, que deram o controlo total da imagem e do futuro da planta a um pequeno grupo que destruiu a cultura circundante e as crenças que a acompanham. É hora de mudar o discurso: construir coletivamente um novo futuro para a coca, com foco na restauração e na justiça social. Como nos ensinaram nossos pares indígenas, a planta nos mostrará o caminho do pensamento alegre.



