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A Luta do Brasil Contra a Emenda Constitucional para Criminalizar o Uso de Drogas

Em outubro de 2023, poucos meses depois de o Supremo Tribunal Federal brasileiro ter retomado uma audiência sobre a descriminalização das drogas posse para uso pessoal, um grupo de senadores conservadores liderado por Efraim Filho apresentou proposta de emenda constitucional. PEC 45/2023 visa criminalizar a posse de qualquer quantidade de drogas, restringindo assim o impulso para uma reforma progressista das políticas de drogas no Brasil. A proposta foi aprovada pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado no dia 13 de março deste ano e deveria ser discutida em cinco sessões do Senado antes de ir para votação. No entanto, durante a quarta sessão, os senadores aprovou um pedido urgente de debate temático sobre a PEC, adiando a votação para um momento posterior – prevista para o final de abril.

Hoje, dia 15 de abril, senadores participarão de sessão para ouvir opiniões de especialistas. Médicos Drauzio Varella, Ronaldo Laranjeira (notoriamente anti-droga apoiador de comunidades terapêuticas) Antonio Geraldo da Silva, Sérgio Paula Ramos e Valentim Gentil serão convidados para a sessão temática; o conselheiro Ubiracir Lima, do Conselho Federal de Química; os professores Andrea Gallassi (Universidade de Brasília) e Marcelo Leonardo (Universidade Federal de Minas Gerais); Silvia Souza, da Ordem dos Advogados do Brasil; Jan Jarab, representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos; o médico José Hiran Gallo, presidente do Conselho Federal de Medicina; e o deputado Osmar Terra, um dos aliados mais próximos do ex-presidente Jair Bolsonaro e grande apoiador da patologização e criminalização do uso de drogas. Um protesto do 

 

Organizações da sociedade civil que se uniram para se opor à emenda constitucional. Fonte: Usuário Não é Criminoso

 

Um grupo de organizações e ativistas da sociedade civil brasileira está coordenando a atenção pública e política contra esta medida. “A PEC 45/2023 vai contra o que o mundo está a adoptar em termos de políticas de drogas, particularmente aquelas que seguem a redução de danos, o apoio social, a integração comunitária e o respeito pelos direitos humanos”, afirma a sua declaração aberta que foi partilhada com TalkingDrugs. 

“Estudos internacionais demonstram que a criminalização das drogas não leva à redução do consumo e tende a aumentar a violência”, afirma o comunicado.

Não há muita esperança neste apelo para evidência, porém, uma vez que a maioria dos senadores certamente seguirá um cálculo cínico dos possíveis resultados políticos de suas posições. Outros, é claro, agirão de “ignorância cristalina” sobre a pilha de evidências no prejudica da proibição das drogas e da criminalização das pessoas que usam drogas. Se a PEC for aprovada no Senado (três quintos dos oitenta e um senadores devem votar sim), seguirá para a Câmara dos Deputados para votação final, onde a mesma matemática norteará as votações. Também deverá ser votado favoravelmente por três quintos dos 513 deputados federais. Congresso, que tem a responsabilidade de defender os direitos individuais consagrado no artigo quinto da constituição de 1988, está no seu estado mais conservador e reacionário desde que o país se tornou uma democracia. 

O observador ocasional da política de elaboração de políticas sobre drogas no Brasil poderia acreditar que estamos testemunhando o fechamento de uma janela política que estava entreaberta em 2006, quando a posse de drogas para uso pessoal foi de jure descriminalizado. Quando olhamos para o de fato Contudo, a nível nacional, a falta de um limiar claro para diferenciar os utilizadores dos fornecedores facilitou o encarceramento em massa de pessoas cuja cor da pele, classe social e código postal as tornam indesejáveis. Uma janela política para uma política de drogas mais progressista e humana nunca foi aberta no Brasil.

 

Mudança lenta para a repressão da política de drogas

O que estamos realmente testemunhando no Brasil neste momento é uma continuação velada de uma abordagem reacionária à política e legislação sobre drogas que ganhou impulso durante O mandato do ex-presidente Bolsonaro. O atual presidente Lula, com seu apoio politicamente calculado para comunidades terapêuticas religiosas, fez com que o Brasil fosse o único latino-americano Estado para financiar tais instituições; o estado continuou abordagem militarizada para combater o fornecimento de drogas não está a fazer nada senão manter fechada a janela política progressista, em vez de mobilizar o seu capital político para pressionar por reformas significativas. Isto apesar da sinalização de Lula que a sociedade civil teria voz no futuro da política de drogas no Brasil após sua eleição.

“A PEC reforçaria o racismo estrutural no país, pois impactará os brasileiros de forma díspar. Mais pessoas serão presas, teremos mais estigmatização e piores condições para cuidar da saúde das pessoas que usam drogas”, disse Fran Silva, coordenadora nacional da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (RENFA). Os activistas acreditam que este esforço para aumentar a criminalização teria impacto sobre aqueles que já são excessivamente policiados e vigiados pelas autoridades militares e estatais.

Ao abster-se de assumir uma posição de liderança ousada e progressista na definição e implementação da política de drogas, Lula corre o risco de deixar o Congresso colocar o Brasil na vanguarda da repressão. Em uma nação com tanto potencial para revolucionar a forma como abordamos as drogas, o Brasil deveria pressionar por uma reforma da política de drogas moldada pelas experiências do Sul Global. Isso inclui apoiando o presidente da Colômbia, Gustavo PetroO apelo ousado do Governo para abandonar a proibição e a militarização e adoptar uma abordagem que coloque a justiça social, económica e ambiental como princípios centrais da política de drogas. Em vez disso, a PEC pode nos fazer correr na direção errada.

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